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A pesquisa dos “ungidos”

 

* Márcio Alexandre

 

Recebi essa semana, de um protestante, desses chauvinistas neopentecostais, por whatsaap, um vídeo de um show de um cantor sertanejo no qual o decantado artista pergunta sobre quem votaria em determinados candidatos. Para o emitente, essa simples sondagem é a verdadeira pesquisa porque, no seu entender, a maioria teria demonstrado pretensão de votar no genocida miliciano que hoje ocupa a Presidência da República.

Tentei ponderar que, considerando as características do cantor – um camarada ingrato que traiu a mulher, que abandonou o irmão e que acha que nenhuma dessas duas pessoas e outras tantas que o ajudaram não tem mais nenhuma importância para ele ter trilhado o sucesso – um show dele tende a atrair gente à sua imagem e semelhança: ingrata, infiel e insensível. E que, por tabela, via de regra, são (maus) atributos  encontrados em quase todos os que ainda insistem em estar ao lado do genocida.

Ele me perguntou: isso é jornalismo? Imaginem: o cara me manda um vídeo e reclama porque comentei a respeito. Depois, não satisfeito, quer confundi a minha opinião pessoal a respeito de algo que até então só tem nós dois envolvidos. Como se todo e qualquer enunciado que emito, oral ou verbalmente, se configurasse em exercício da minha prática profissional. Em qualquer circunstância de tempo, lugar, espaço e/ou meio.

Seguiu sua cantilena, agora a desqualificar um candidato sobre o qual, até então, ninguém havia falado. E não deveríamos. Ora, se ele me apresenta – com clara intenção de me convencer – um vídeo no qual um cantor faz campanha por um determinado candidato e eu apresento argumentos em que mostro porque não votei, não voto nem votaria nele, cabia a ele, entendo eu, mostrar as qualidades do seu (m)ungido.

Não, o camarada não o fez. Optou por dizer que um outro candidato seria isso, aquilo e aquilo outro. Coincidentemente, todos os erros, crimes e ilegalidades que ele tentou atribuir ao seu suposto adversário, são cometidos exatamente por quem ele defende. Nem todos se libertam quando conhecem a verdade.

De lá para cá, tem enchido a memória do meu celular com seus vídeos. Todos, com fragmentos de falas, reportagens, entrevistas, sempre editadas com a intenção de me convencer de que é bom ter desemprego gritante, milhões de pessoas passando fome, de que os filhos do presidente não são tão bandidos quanto ele, e que o tudo o que estamos passando é fruto dos governos anteriores e blá, blá, blá e blá e que o segundo mandato do messias será tão abençoado quanto o atual. Vade retro. Ah, e para que ele não esqueça, isso aqui sim é jornalismo. Chama-se artigo de opinião.

 

* Professor e jornalista

 

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O que a gestão Allyson Bezerra tenta tanto esconder?

 

* Márcio Alexandre

 

Transparência é um dos principais pilares da gestão pública. Erigida sob o princípio constitucional da publicidade, significa que é obrigação do gestor dar ciência aos munícipes, de forma clara, objetiva e direta, dos atos públicos dele emanados.

Ser transparente não é apenas fazer lives dizendo que está criando esse ou aquele projeto. Não é invadir salas de cirurgias para dizer que reativou serviços. Muito menos encher as redes sociais com a presença desse ou daquele gestor acompanhando uma obra. Pequena ou faraônica. Vai muito além disso. Aliás, esse tipo de espetáculo com luzes feéricas, “cega mais do que ilumina”.

Em Mossoró, os atos de propaganda do governo municipal mais parecem ter a mais a intenção de vender mentiras do que revelar verdades. As questões mais importantes e, portanto, de maior interesse público, são tratadas a 7 chaves pela gestão Allyson Bezerra (Solidariedade). Esse “cofre” quase inatingível só é aberto ao bel-prazer do gestor. Mesmo cobrado pela imprensa, o prefeito se negar a revelar aquilo que por obrigação, precisa mostrar aos mossoroenses.

Quando questionada pela imprensa por algo mais sério, a gestão Allyson usa uma estratégia, pequena, rasteira, absurda, lamentável, criticável, que é a de fazer esperar. Tentar vencer pelo cansaço.  Fazer com que esqueçamos.

A gestão Allyson Bezerra tem alguns dos melhores jornalistas de Mossoró e do Rio Grande do Norte. Profissionais gabaritados. Sérios. Honrados. Capazes. Mesmo com assessores dessa envergadura, dificilmente a gestão consegue dar uma resposta à imprensa com um tempo razoável. É exigir muito que uma gestão dê em duas, três horas, uma resposta a algo simples? Na prefeitura de Mossoró, não se responde à imprensa, nada, que não seja com pelo menos um dia de espera. E estou sendo gentil.

Uma gestão que se diz moderna, que diz ter agilizado os fluxos dos processos, que garante ter informatizado toda a máquina, que propala ter reduzido a burocracia, não consegue responder, por exemplo, quantos atendimento uma empresa contratada para atuar na Saúde, vai oferecer por mês.

Se pedimos o posicionamento da prefeitura sobre uma denúncia de um fato que toda a cidade já sabe, a espera nunca é inferior a meio dia. É como se a gestão nunca soubesse nada daquilo que ela teoricamente está cuidando. Ou pelo menos deveria estar.

Vou citar os dois últimos casos para o leitor ter uma noção do quanto a gestão Allyson Bezerra é uma farsa em se tratando de comunicação dos seus atos. O prefeito faz questão de divulgar as coisas apenas por meio de seus canais porque só divulga o que tem interesse e não aceita ser incomodado. Típico de autoritários.

Na sexta-feira passada, 7 de janeiro, o Blog Na Boca da Noite apresentou duas demandas aos jornalistas que assessoram a gestão Allyson Bezerra. Uma da área da Saúde e outra da Educação. Na primeira situação, buscávamos o posicionamento da gestão sobre denúncias de situação de casos na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Alto de São Manoel. Depois de muita insistência nossa, recebemos uma nota da prefeitura na segunda-feira, 10 de janeiro. Veja só: a prefeitura levou mais de 70 horas apenas para negar aquilo que já de conhecimento da maioria.

A demanda da Educação, mais simples, apenas respostas a alguns questionamentos, também apresentada na sexta-feira, e segue sem retorno do município. Como trata-se de um assunto que interessa a toda a sociedade, temos insistido. Buscar incessantemente informações que são de interesse público não gera constrangimento, mesmo que o assessor se recuse a receber suas ligações, não responda a suas mensagens, lhe diga que vai retornar em instantes e “lhe esqueça”. Tem sido assim com essa demanda da educação.

Fizemos as seguintes perguntas à Secretaria Municipal de Educação (SME), via assessoria de comunicação:

Qual o entendimento hoje da SME em relação ao reajuste do Piso Salarial do Magistério:

a) Concorda com o percentual de 33,23%?

b) Pediu estudos de impacto econômico à equipe econômica do município?

c) Vai cumprir à integralidade? Se sim, a partir de quando?

d) Vai parcelar? Se sim, em quantas?

e) Pretende convocar o sindicato da categoria para negociar? Se sim, quando?

Percebam, o percentual já está definido há quase um mês e a gestão Allyson Bezerra segue silente fingindo que não tem nada a ver com o tema. Covardia é um adjetivo simpático para classificar o suposto

Hoje, uma semana insistindo com o assessor sobre as respostas – e depois de termos ligado reiteradas vezes para a secretária da Educação, Hubeônia, Alencar e ela tendo se recusado solenemente a atendê-las – o jornalista respondeu: “entraremos em contato quando tivermos as informações”. Uma resposta que mostra o quanto a gestão Allyson Bezerra é uma farsa, uma mentira, uma enganação, uma empulhação. São artifícios que a gestão utiliza para que a população não tenha acesso às políticas, aos serviços, e às informações. E ainda ache que está sendo boa. Um engodo, no dizer popular.

Iremos até o fim em busca daquilo que a sociedade precisa saber. Nem que tenhamos que recorrer ao Pretório. O prefeito Allyson Bezerra não é o dono de Mossoró. Ocupante provisório do Palácio da Resistência, deveria dar exemplo e permitir que seus assessores repassem para a imprensa aquilo que ela busca e precisa, porque quem precisa é o povo, constituindo-se, pois, muitas vezes como única voz a defendê-lo.

Uma gestão moderna, tecnológica e eficiente como a que ele diz executar, não deveria ter tanta dificuldade em repassar informações simples aos órgãos de comunicação. Com tantos predicados, só podemos imaginar que se trata de má vontade com a população. Ou então, podemos questionar: não há planejamento na gestão? Não há descentralização? Não há transparência?

Fazer com que os assessores ajam com contorcionismos é humilhante. Ultrajante. Infelizmente, a gestão não publiciza seus atos nem com os órgãos de comunicação supostamente “amigos” do poder. É preciso que Mossoró questione: o que a gestão Allyson Bezerra tenta tanto esconder? Na Mossoró digital de Allyson, a transparência parece andar em carro de boi.

 

* Professor e jornalista

 

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Quer ter um ano verdadeiramente novo?

 

* Márcio Alexandre

 

O Ano Novo não existe, o que existe é o dia seguinte, costumava escrever o jornalista e professor Canindé Queiroz. De fato, se repetirmos, em ideias e ações, no ano que se inicia, tudo o que fizemos no ano que findou, nada de novo ele terá.

Não é só retórica. Não é só discurso. Não é só mensagem. É verdade. Se não fizermos diferente tudo o que for possível, nada será novidade.

Em 2022:

Só lamente as perdas humanas, se deu verdadeira importância às pessoas quando elas estavam vivas;

Só reclame da fome se não tiver dificuldade em falar em igualdade social;

Só se lamurie com injustiças se tiver ajudado a combatê-las;

Só denuncie desonestidade se também tiver sido honesto; do contrário comece por você;

Só diga que a pandemia foi ruim se contribuiu para minimizá-la;

Só revele saudade se fizer esforço para rever quem ama;

Só demonstre insatisfação com falta de amor se amar indistintamente;

Apenas reclame dos atos, gestos, ideias e atitudes dos outros se agir para o bem, fizer gestos de bondade, pensar no próximo e verdadeiramente quiser que tudo melhore para todos. Indiscriminadamente.

 

* Professor e jornalista

 

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Crônica de Natal

 

* Márcio Alexandre

 

As cadeiras ainda espalhadas. Pratos e talheres sobre a pia. Na geladeira, restos do que foi a ceia. A desarrumação dessa manhã mostra que a noite foi de celebração. Voltou-se a comemorar o aniversário mais importante. A lembrar do Salvador da maneira mais tradicional a que nos acostumamos. Da forma mais festiva. Da festa mais sagrada.

Mas para muitos, foi muito diferente. Sobrou mais comida do que costume. Na noite especial, a mesa sempre foi mais farta. Para esse grande momento, todos se esforçam mais. Tudo parece render mais: o banquete, a alegria, o encontro.

Nesse ano, como foi grande a expectativa!!! Pelo reencontro, valeram todos os esforços. Pela presença, valeram os cuidados. Pelos sorrisos, valeram alguns pequenos riscos.

Superamos quase tudo. As pequenas desavenças que se acumulam ao longo do ano. As indiferenças que teimamos em guardar. As mágoas que não deveríamos deixar alongar. Superamos tudo. Mas não superamos a saudade.

Nesse 2021, a magia foi ainda maior, mas não fez esquecer que o tempo foi de perdas. De gente que foi antes da hora. Da hora que teimou em não passar. Do passado que teima em nos fazer lembrar. O quanto foi difícil. O quanto foi sentido.

Nesse ano, da ceia sobrou mais comida porque faltou mais gente. Faltaram aqueles que não estarão mais. Aqueles que o vírus venceu. Faltou gente porque escasseou sensibilidade.

Só não faltou no coração a certeza de que os que aqui não estão celebraram com o Dono da noite. Que o Natal seja luz em nossos corações a nos lembrar da chama dos que agora cuidam de nós juntos do Pai.

 

* Professor e jornalista

 

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Na gestão Allyson, transparência e verdade agonizam na UTI

O grande problema de quem quer ser mais esperto que todo mundo é achar que só ele tem mãe, já diz o adágio popular. Na prática, o que essa expressão quer dizer que aquele que pensa que está enganando todo mundo imagina que só ele teve acesso às possibilidades. De aprendizado. De melhoria. De crescimento. De vivência. De informação. Do privilégio de saber. De pensar que só ele sabe o que pensa que sabe.

O prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, é uma dessas pessoas. Por fazer uso recorrente das mídias sociais – a ponto de pensarmos sobre qual o horário sobra para ele administrar a cidade -, o jovem chefe do Executivo imagina que todo mundo acredita no que ele diz. Pior: que só se acredita no que ele diz. Mesmo que ele diga inverdades.

Mas tão grave quanto isso é dizer uma verdade, saber que se comprometeu porque a disse, e depois dizer que o que foi divulgado é uma mentira. Há muitos casos dessa natureza em se falando da gestão Allyson Bezerra, mas vamos nos reportar ao fato mais recente.

O contrato entre a prefeitura de Mossoró e a empresa Neo Clínica vai ser encerrado. Como não é um contrato vitalício ou ad eternum, ele tem data de início e de fim. Dessa forma, expira no 27 de dezembro, portanto, na próxima segunda-feira. Essa informação, registre-se, foi confirmada pela própria prefeitura. Assim está na primeira nota sobre a questão divulgada pelo município:

Nota à imprensa

Sobre a disponibilidade de médicos para a UTI pediátrica, a Prefeitura de Mossoró esclarece que, após o encerramento do contrato com a empresa Neo Clínica no dia 27 deste mês, outra empresa assumirá a prestação desse serviço já no dia posterior, 28 de dezembro. Ou seja, o atendimento não será interrompido.

A prefeitura acha que errou ao divulgar essa nota assumindo que é dela o ônus pela informação. Típico de quem joga com a canalhice de colocar a população contra a opinião pública, a gestão divulgou uma segunda nota. Nessa, a prefeitura finque que não há problema, tenta disfarçar que o fato não existe e, absurdo dos absurdos, diz que a notícia que ela chancelou é falsa.

Veja a canhestra segunda nota:

“A Prefeitura Municipal de Mossoró, através da Secretaria Municipal de Saúde, esclarece a população mossoroense que não procede que o serviço de UTI pediátrica ficará sem médicos.

Lamenta que tenha se divulgado na cidade notícias falsas no intuito de desinformar à população.

Por fim, o município reforça o compromisso de garantir atendimento médico de qualidade à população”.

O Blog Na Boca da Noite, ao receber a primeira nota da prefeitura já havia feito alguns questionamentos ao município. Quando as questões precisam ser postas de forma clara para a sociedade, cabe a imprensa questionar enquanto aquilo que é de interesse público ainda não estiver de todo explicado.

Perguntamos à Secretaria Municipal da Saúde (SME): qual empresa vai substituir a Neo Cclínica? Por que da mudança? A prestação do serviço vai baratear?

A SME nos informou que a empresa que vai substituir a Neo Clínica será a Sama. E por que da não renovação do contrato com a Neo Clínica? A resposta é de um didatismo tocante: porque não se pode ter duas empresas prestando o mesmo serviço. Bravo que a gestão saiba disso. O que não sabemos, e quem tem que explicar é a gestão é: o pagamento desse novo serviço será por meio daquele contrato de R$ 25 milhões?

Também cabe uma reflexão: em sendo o mesmo contrato, a prefeitura transacionou com a Sama em fevereiro passado já deliberadamente com o propósito de não renovar com a Neo Clínica? Se assim o foi, não teria sido um gesto de transparência e zelo com a res publica o prefeito ter avisado, ao menos em suas famosas lives, que estava já contratando a Sama para substituição futura da Neo Clínica por razões tais, entre as quais, talvez a mais importante, a de que a prestação de serviço ficará mais barato?

Entre as notas divulgadas pela prefeitura faltou a gestão notar que em nenhum momento a imprensa inventou qualquer coisa. Por mínima que seja. Apenas, no cumprimento de seu dever, noticiou que a prefeitura decidiu não renovar o contrato com a Neo Clínica e que tal fato implicaria em não cobertura médica na UTI Pediátrica. E por que se disse que a especialidade médica poderia ficar descoberta? Por que a prefeitura não se dignou a informar que uma nova empresa assumiria o serviço, só o fazendo após ser inquirida, insistentemente, por essa imprensa que a gestão tenta desqualificar.

Vejam só: a notícia sobre a não renovação do contrato já era de conhecimento da imprensa desde as primeiras horas do dia de ontem, quando se buscou da prefeitura sua versão para o fato. A nota informando sobre a assunção do serviço por uma nova – velha – empresa só foi repassada aos órgãos de comunicação às 16h dessa mesma terça-feira.

Na literatura penal, convencionou-se classificar como um ato clássico para tentar se livrar de um crime a tentativa de desqualificar as testemunhas. Ninguém é testemunha tão privilegiada de os desmandos de ditadores do que a imprensa. Porque a ela quase tudo é dito pelos que sofrem com os atos dos tiranos.

Há uma conhecida citação, atribuída a Otto Von Bismarck, segundo a qual “nunca se mente tanto quanto antes das eleições, durante uma guerra e depois de uma caçada”. Ousaríamos acrescentar: e na explicação de contratos nebulosos em certas gestões. No fato em comento, Allyson Bezerra colocou a transparência e a verdade numa UTI. Agonizando. Vai ser difícil tirá-las de lá com mentiras.

 

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Vende-se uma paixão?

 

*  Márcio Alexandre

 

O ex-jogador Ronaldo Nazário, o Ronaldinho, comprou o Cruzeiro. Manchete estampada em jornais. Notícia em todos os meios de comunicação possíveis. De rádio AM aos multiplataformas. Trata-se, não só de um fato, mas de um fenômeno. De outros lugares, que chega por aqui.

Em meu pensamento veio um grande questionamento: compra-se uma paixão? Sim, um time de futebol é uma das coisas que mais movimentam o sentimento da imensa maioria das pessoas no mundo. De quase todos os brasileiros.

Embora o resultado nas competições seja hoje em dia cada vez mais consequência da (boa) gestão, para a maioria do torcedor pouco importa quem esteja no comando da burocracia do clube. Nas piores das crises de resultados, sempre sobra para o treinador. Vez por outra para algum jogador. Dificilmente se volta a ira contra os dirigentes.

O esporte bretão, surgido, para usar uma expressão de Nelson Rodrigues, “aos 45 minutos antes do nada”, tomado por empresários milionários. O desejo de muitos decidido pela vontade de um. Que quer lucrar. Que quer ganhar. Não títulos, mas dinheiro.

Um elemento da paixão nacional ao sabor do ego solitário. Do mandonismo individual. Da ganância de quem já tem muito.

A onda agora é clube-empresa. Deixa-se de torcer por um distintivo para torcer por uma marca. De um escudo por um design. De um uniforme por uma farda. De um mascote por um garoto-propaganda.

Perdoe-me o lirismo. Desculpem-me a brejeirice. Relevem o romantismo. Mas futebol, para mim, só existe como paixão. O Cruzeiro o é para seus torcedores. E paixão, não se troca. Muito menos se vende. Paixão se vive.

 

* Professor e jornalista

 

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A covardia dos ingratos

 

* Márcio Alexandre

 

Era um rapaz pobre do interior do interior do Rio Grande do Norte que sonhava ser advogado. Filho de mãe lavandeira e pai agricultor, sabia que as dificuldades para tornar real o que alimentava nos sonhos eram inimagináveis. Mas mantinha a esperança.

Ao terminar o Ensino Médio, a realidade bateu ainda mais forte. A unidade de ensino superior mais próxima de sua cidade ficava a no mínimo 150 quilômetros de distância. Além do mais, a necessidade de ajudar no sustento da casa tornava ainda mais longe a possibilidade de estudar Direito, um curso caro. Mesmo em universidade pública, há custos elevados.

Buscou resolver as primeiras situações. Virou policial. Pouco tempo depois, casou. A namorada já grávida. A chegada do primeiro rebentou aumentou a alegria família e os custos para mantê-la. Passou a fazer bicos nas folgas. Ia se virando. E mantendo o sonho vivo.

Os anos foram se passando, e o desejo se mantém cada vez mais forte. Fez seleção pública e foi aprovado no sonhado curso de Direito. Passou na reserva de cotas. Feitas as contas, percebeu que seria quase impossível se deslocar à sede da faculdade. Pior, ter que manter a família e ao mesmo tempo os custos no município dos estudos.

À esquerda, uma luz se acendeu. O governo federal criou, exatamente no ano em que ele precisava, uma bolsa para profissionais da segurança pública. O presidente da época, então, virou uma grande referência. Um herói. Quase uma paixão.

Com o dinheiro dessa bolsa, pagava a colegas para “tirar serviço” por ele enquanto passava os finais de semana na sede do curso. As vacas eram tão gordas que nem aos sábados e domingos precisava trabalhar. Churrasco e cerveja eram mais atrativos, afinal de contas ninguém é de ferro.

Namorador, fazia da monogamia brinquedo sob sua manipulação. A distância, os namoros e as farras domingueiras o foram afastando da esposa, fiel companheira, mulher que aguentou todos os seus reveses, dificuldades e mudanças de humores. Mesmo ela se mantendo firme na relação, ele a abandonou. No seu pensamento, o coração necessitava de um novo amor. Logicamente, com menos idade.

Suas feições foram se alterando. Seus desejos se metamorfoseando. Trocou discursos de amor por apego às armas. Comida para todos por excludente de ilicitude. Papo com amigos por vídeos negacionistas de redes sociais. O sangue caserneiro tão forte que abobalhou-se. Viu inteligência no ódio. Sensatez na raiva. Honradez na imbecilidade.

Hoje não tem mais a companheira de anos, a mãe dos filhos. O afeto dos rebentos também escasseou. Do governo que admirava, tem o diploma de Direito, raiva e ingratidão. Não era pra ter mais pobres chegando à universidade. As oportunidades eram pra ter cessado quando chegou sua vez. Em 2022, os dois últimos dígitos serão acionados na urna. Pra tudo tem limite. Principalmente para os mais humildes. Essa gente já chegou longe demais.

 

* Professor e jornalista

 

Veja mais:

 

A agonia dos que não se arrependem

 

A fraqueza dos submissos

 

A violência dos fingidos

 

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Vídeo: Na Câmara de Mossoró é agressão um dia sim, e no outro também

 

* Márcio Alexandre

 

Envergonhado e constrangido, escrevo esse artigo. Mas é preciso escrevê-lo. Minha obrigação enquanto jornalista. Meu dever de cidadão. Minha contribuição como professor.

Envergonha-me ter que dirigir-me a homens públicos para dizer-lhes obviedades: senhores vereadores, melhorem. Não dá mais para ver a Câmara Municipal de Mossoró transformada em palco de espetáculo tétrico.

Envergonha-me porque são nossos representantes nos fazendo corar. De tristeza e desesperança. São os parlamentares de minha cidade. Não me regozijo quando algum deles erra. Quando é o primeiro erro, lamento. Quando reincidem, sinto dó. De quem os escolheu.

Constrange-me ter que ouvir e ver quase diariamente pessoas pagas com nosso dinheiro para destilar ódio, preconceito e intolerância. Constrange-me que em algumas ocasiões, por filigranas o plenário não é transformado em ringue.

A Câmara Municipal é uma casa política. Para se fazer Política com P maiúsculo. Infelizmente, não é o que temos visto, com raras e honrosas exceções. Muitos dos discursos ali proferidos beiram a selvageria. Homens públicos que não toleram uma crítica. Políticos que não aceitam uma opinião contrária. Contrários que não se toleram.

Ontem, o presidente da Comissão de Constituição, Justiça e Redação, Raério Araújo (PSD) achincalhava um adversário, ao mesmo tempo em que o desafiava para a briga. “Diga na minha frente, se tiver coragem”, bradava, fazendo inveja aos Assírios. Não satisfeito em seu desequilíbrio vocabular, ainda comparou o suposto desafeto a “mulher ruim” e “baitola”. Não dá para fazer comparação com algo tão repugnante.

Hoje, o vereador Naldo Feitosa, reparem só, filiado ao Partido Social Cristão (PSC) foi o errante da vez. A pleno pulmões, mandou um lamentável discurso de intolerância religiosa. A despeito de atingir uma adversária política, afirmou, numa fala com pouca coesão e muita maldade: “próximo ano a campanha vem aí. O próximo ano ela estará pedindo votos para o governo novamente, fazendo pacto com toda quanto é religião”.

No Estado laico em que vivemos, Naldo Feitosa, como homem público que é, detentor de cargo eletivo e integrante de um poder constituído, deveria saber que errada estaria a pessoa a quem ele tentou criticar, se ela privilegiasse uma religião em detrimento das demais.

A Raério, Naldo, e aos demais que insistem em esquecer que nos representam, um apelo: melhorem. Tenham zelo pelo mandato. Tenha apreço pela Câmara Municipal de Mossoró. Tenham respeito pelo povo. Por favor, não nos façam passar ainda mais vergonha. Já fomos constrangidos demais.

Veja o vídeo

* Professor e jornalista

 

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A violência dos fingidos

* Márcio Alexandre

Quem vê as fotos nas redes sociais jamais imagina o esforço que a mulher faz para emular um riso. A semana é difícil. Muita cachaça e nenhum afeto. Moram juntos, mas sequer trocam olhares. Os corpos não se aproximam nem aos esbarrões, embora habitem o mesmo endereço residencial e de luta pela sobrevivência.

Ele está no segundo casamento. Muito comum nos que tentam disfarçar a sexualidade frágil. Também estão em uma segunda ou terceira relação conjugal a maioria dos amigos. Principalmente os que tem saco para ainda dividir com ela a mesa de bar e a conta da bebida e dos petiscos.

Tem dois filhos. O do primeiro enlace está abandonado. Colocou na masmorra do esquecimento por causa de problemas da adolescência. Esses que se originam, entre outras coisas, da ausência paterna. Uso de drogas à luz do dia e crimes pesados à sombra da noite. Inclusive homicídio.

Pobre, ao conseguir um emprego de uma terceirizada de uma importante estatal, viu-se no Olimpo. Achava não estar mais na base da pirâmide. E esqueceu os amigos que permanecem lá. Deveria ter voltado à realidade quando foi demitido, mas preferiu destilar ódio, inclusive contra os parentes.

Machista, diz que a mulher ficou indiferente a ele depois que perderam o plano de saúde que era pago pelo empegador. Adora chamar a atenção, principalmente para destilar misoginia, preconceito e machismo. Ela tolera as violências dele em nome de uma boa imagem de casal e para evitar maledicências. Mas prepara, na surdina, as condições que lhe garantam alforria futura.

De segunda a sexta, é do trabalho para o quarto, Nos finais de semana, da cama para a cachaça. Não tem mais sequer apreço por intimidade de casal. Conversas em mesa de bar são o seu grande prazer. A cada comentário ignóbil sua libido vai a mil.

Em alguns domingos, em que o desejo de se embriagar não é saciado nas primeiras horas do dia, consegue levar a mulher e o filho da atual esposa para um passeio. Especialmente para as praias. Para ela, a beleza do mar vale o sacrifício de estampar felicidade fake em retratos de celular. Para ele, a satisfação de que os outros pensem que está tudo bem, afinal de contas, o importante é a família. Mesmo que pratique tanta violência. A mais horrenda delas foi nas urnas em 2018.

* Professor e jornalista

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A prova que reprovou a pedagogia política da gestão Allyson Bezerra

 

* Márcio Alexandre

 

Uma prova escolar é, além de um instrumento de avaliação, uma importante ferramenta de aprendizagem. Mas é necessário, claro, que ela seja instrumentalizada como tal. Há vários tipos de provas para objetivos específicos.

Uma prova diagnóstica é imprescindível para aferir não só o nível em que está a aprendizagem do aluno, mas e também para o planejamento. Do trabalho em uma turma, de uma unidade educacional, de uma rede de ensino.

Em todos os casos, é necessário muito zelo em sua elaboração. Mais que isso: nela deve-se vislumbrar apenas o caráter didático-pedagógico. Qualquer outra intencionalidade, expressa ou subliminar, pode se constituir em algo catastrófico.

Chamou a atenção uma prova diagnóstica da rede municipal de ensino de Mossoró em que se colocou uma questão na qual a resposta induzia, levava, indicava, apontava, quase que em forma de súplica, que se respondesse, inevitavelmente, com o nome do prefeito da cidade, Allyson Bezerra.

Colocar tal questão numa atividade avaliativa não é, em si, o problema. O problema em si é a forma como ela está colocada e no tipo de prova em que ela foi posta. Pois bem.

Numa prova diagnóstica, sobretudo para balizar a tomada de decisão em um planejamento pedagógico, depreende-se que uma de suas principais funções seja tentar identificar o nível de aprendizagem do aluno, o que ele sabe sobre as questões postas, os conteúdos trabalhados. Sobre que conceitos (re)construiu. Que habilidades desenvolveu.

Analisemos: a questão posta sugeria que os alunos respondessem aos enunciados a partir de vocábulos apresentados num quadro à direita das perguntas. Pela maneira como a questão foi construída, e pela forma como se cobrou do aluno as respostas, questiona-se que ela tenha sido colocada numa prova diagnóstica. Por uma razão muito simples: do jeito que foi destacada, difícil imaginar que ela tenha o condão de aferir algum nível de conhecimento. Tem, a meu ver, outras possibilidades. Mas essa não.

O quadro com as palavras para completar as lacunas dos enunciados conta com seis substantivos, sendo quatro próprios e dois comuns. Dos próprios, há três referentes a lugares (Mossoró, Natal e Rio Grande do Norte). Dessa categoria de substantivos, há apenas um nome de pessoa. De quem? Do prefeito, logicamente.

Não se desmerece a importância de que os estudantes saibam o nome do chefe do Poder Executivo municipal. A forma posta, me desculpem os que pensam diferente, tem claramente o propósito de enaltecer a figura de Allyson. Se foi involuntário, é algo grave. Se não foi, mais grave ainda. Trata-se de uma avaliação diagnóstica, não esqueçamos. Uma prova elaborada para toda a rede municipal de ensino. Curiosamente.

Ora, se a questão buscava a construção de conhecimento sobre a unidade federativa municipal, por que não colocar em relevo, por exemplo, o nome do presidente do Legislativo local? Sobretudo porque não temos Poder Judiciário municipal.

Estão querendo minimizar o problema. Questionada pelo Blog Na Boca da Noite, a Secretaria Municipal de Educação se limitou a dizer que a prova foi elaborada por um grupo de professores. O Conselho Municipal de Educação, também ouvido, disse não saber do teor da avaliação.

São com pequenas sutilezas, com mensagens subliminares, com intencionalidades subjacentes em instrumentos didáticos importantes que se iniciam projetos de doutrinação. Essa é uma afirmação para uma reflexão.

O episódio citado mostra que a pedagogia política da gestão Allyson Bezerra foi reprovada. Se continuar assim, a política pedagógica poderá ficar em recuperação.

 

* Professor e jornalista

 

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