Conversa de Sábado com Tuca Viegas

É perceptível o aumento de pessoas que vivem em situação de rua em Mossoró. Vivendo suas próprias dificuldades e enfrentando a omissão do poder público, essas pessoas encontram no trabalho de voluntários uma chance para se alimentar e, especialmente, de se reencontrar enquanto gente. Ações como as realizadas pelo “Vamos nos ajudar nas ruas” tem contribuído significativamente nesse sentido. Pelo projeto, todos os domingos são distribuídas cerca de 80 quentinhas para pessoas em situação de rua na cidade, em locais como a Praça Vigário Antônio Joaquim, praça do Mercado Central, antigo Fórum Desembargador Silveira Martins, Igreja Universal, Cobal e Praça Antônio Gomes. Idealizador e voluntário do “Vamos nos ajudar nas ruas”, Tuca Viegas fala nesta Conversa de Sábado sobre a iniciativa, destacando, entre outras coias, a escuta que se faz com aqueles que são ajudados. Acompanhe:

Por Márcio Alexandre

BLOG NA BOCA DA NOITE – Fale-nos sobre o trabalho que vocês estão fazendo com moradores de rua.

TUCA VIEGAS – Em primeiro lugar eu gostaria de agradecer o convite para poder estar participando do blog Na Boca da Noite. Pra mim é uma honra. Para nós que fazemos o Vamos nos Ajudar na Rua, divulgando esse trabalho que vem sendo desenvolvido em Mossoró, muito nos honra estar participando do blog. Nós distribuímos quentinhas aos domingos para as pessoas que estão em situação de rua, na cidade Mossoró, Nós temos um limitador de quantidades em função de equipamentos que nós temos, na cozinha, fogão, essas coisas, para fazermos essa ação na cidade, aos domingos, sempre a partir das 18h30 da tarde.

BLOG NA BOCA DA NOITE – Como surgiu essa ideia?

TUCA VIEGAS – A gente fazia parte de um grupo, mas o grupo estava mais focado na questão da cesta básica, que é uma coisa mais fundamental, porque muita gente precisa, porque muita gente tem moradia, mas não tem o que comer em casa. Mas a gente viu também a questão iminente das ruas, das pessoas que estão na rua, que estão em situação de rua, e que não tem onde cozinhar se a gente entregar o alimento cru. Então a gente criou o Vamos Ajudar nas Ruas para justamente suprir essa necessidade. A gente sabe que é muito pouco ainda. A gente faz isso uma vez por semana, mas a gente viu que era uma forma de estar todo domingo e não faltar nenhum domingo. Desde que a gente começou a gente está todo domingo, constantemente ajudando. A gente começou com 40 quentinhas, hoje a gente distribui 80 quentinhas para pessoas em situação de rua.

BLOG NA BOCA DA NOITE – Como foi o início em si?

TUCA VIEGAS – Nós adquirimos um fogão, de 4 bocas, através de uma vaquinha virtual, aí nós fazemos solicitação através do Instagram, lista de transmissão, whatsapp de amigos. A gente tem nosso Instagram: vamos nos ajudar nas ruas. E assím a gente faz essa arrecadação, compra os alimentos e cozinha. A gente tem um fogão de 4 bocas industrial, a gente cozinha esses alimentos, monta as quentinhas e distribui.

BLOG NA BOCA DA NOITE – Do ponto de vista pessoal, porque realizar esse trabalho?

TUCA VIEGAS – É bom colocar que a gente começou o grupo com 4 pessoas, e depois a gente teve um aumento para 6, depois para 8, para 9, mas depois o grupo reduziu de novo, e hoje estamos em 4 pessoas: eu, Kadidja Nascimento, a Jaqueline Oliveira e a Cláudia Juvino. Nós somos 4 pessoas que fazemos todo esse trabalho, todo esse processo. Felizes, né. A gente sente muito orgulho disso, é muito bom. Eu gosto muito de falar que a gente não está ajudando as pessoas, a gente está ajudando a si mesmo, fazendo boas ações. Quando você pratica boas ações, quando você pensa no próximo e pensa em fazer boas ações para os outros, você está fazendo muito mais por você porque isso dá uma sensação, desperta um sentimento na gente que é indescritível. Só fazendo, só participando para você perceber. Uma sensação extremamente agradável, extremamente boa.

BLOG NA BOCA DA NOITE – Existem pessoas que contribuem continuamente para o projeto?

TUCA VIEGAS – Nós temos pessoas que nos ajudam sempre, que contribuem sempre. Nós temos uma lista de transmissão com 93 pessoas, que nós criamos e essas pessoas dessa lista elas estão sempre contribuindo com contribuições através de pix ou contribuições de produtos, ou de roupas e de calçados. Nós tempos um ponto de recebimento de doações, que é a loja Espaço Maia, do Dinarte, que é uma pessoa maravilhosa, que dispôs o Espaço Maia para a gente, e que fica ali na Alberto Maranhão, ali no Aeroporto. Então a gente tem ali um ponto onde as pessoas podem fazer as doações. Essas pessoas dessa lista de distribuição estão sempre presentes, constantemente ajudando. A gente tem muito a ajuda deles, de várias empresas, e eu prefiro não citar para não correr o risco de esquecer algum, e a gente não dá para a gente falar de 93 nomes aqui, que tomaria muito tempo.

BLOG NA BOCA DA NOITE – Na sua percepção, há mais pessoas na rua hoje em dia em situação de vulnerabilidade social?

TUCA VIEGAS – Sim, a gente percebe um aumento no número de pessoas nas ruas. Isso é constante.

A gente iniciou em novembro do ano passado, e no final do ano, festa de santa luzia, a ente acredita que muitas pessoas de outras cidades vem para Mossoró, em busca de oportunidades, e acabam ficando por Mossoró ser uma cidade maior e eles acreditam que tem uma perspectiva maior de chance de empego, de moradia, mas aí começam a perceber uma realidade totalmente diferente. Sempre tem gente nova nas ruas todos os dias, todos os domingos. No ponto do fórum, por exemplo, normalmente tem 5, 6 pessoas, e há 15 dias, tinham 16 pessoas. Então, sempre aumenta o número de pessoas.

BLOG NA BOCA DA NOITE – Qual o sentimento que vocês percebem nessas pessoas que estão sendo ajudadas?

TUCA VIEGAS – A gente percebe um sentimento muito bonito de gratidão. A gente entrega as quentinhas acompanhadas de uma garrafa de água mineral, suco ou café, muitas vezes roupas e calçados, absorventes íntimos, kits de higiene também, e a gente vê muita gratidão, muitos sorrisos, muitas falas. A gente não coloca fotos deles falando porque a gente acha que é explorar a imagem deles, a gente tira fotos, mas não mostra o rosto, apesar que muitos pedem para tirar fotos deles, querem aparecer e dizem que é importante que a gente mostre para as pessoas perceberem como eles estão e para mais pessoas contribuírem, mas o sentimento que eles passam para a gente é de pura gratidão, pura alegria, pura emoção. A gente começa às 18h3, aos domingos, e muitas vezes muitos deles, muitas delas, dizem que é a primeira refeição do dia que eles estão comendo, muitas vezes a gente chega e eles à estão dormindo porque não tinham o que comer, e pra enganar a fome eles estão dormindo.

BLOG NA BOCA DA NOITE – O trabalho que vocês realizam é muito importante, mas você não acha que falta sensibilidade do poder público, sobretudo no plano local, para atender a essas pessoas?

TUCA VIEGAS – Eu acho que nessa questão do poder público, falta iniciativa, faltam políticas públicas para se combater esse problema, para tentar minimizar essa situação. A gente pode perceber que em Mossoró, por levantamentos da própria Secretaria de Assistência Social, levantamento feito pelo Ministério Público, mostra que existem 250 pessoas em situação de rua em Mossoró e isso é um número muito pequeno. Então, acho que o poder público poderia acolher essas pessoas, dar um lugar onde elas pudessem ficar, alimentação e tentar reintegrá-las à sociedade de forma que eles tivessem alguma atividade, uma forma que elas melhorassem a autoestima delas. E a gente tem notícias de pessoas que estão voltando. Sempre tem algum que diz: olha, Tuca, fulano foi para uma clínica, fulano foi se internar. Eles querem uma oportunidade. Eles querem uma chance. A gente tem que perceber e ter a noção e a humildade de saber que ninguém sabe os demônios que cada um carrega dentro de si. A gente não sabe o que aconteceu para fazer com que aquela pessoa esteja naquela situação, mas a gente sabe como ajudar, a gente pode ajudar, e a gente tem que querer ajudar para poder transformar isso numa coisa melhor. Dar uma condição de vida melhor para eles e para elas.

BLOG NA BOCA DA NOITE – Há algum momento de escutam ou a ideia é apenas alimentá-los?

TUCA VIEGAS – Há o momento da escuta, de fala, da conversa. Algumas pessoas do grupo conversam mais, sentam, batem um papo. As meninas com as meninas. A gente tenta de alguma forma saber de notícias, saber de coisas, questões mais urgentes que a gente possa sanar, encaminhamentos médicos, dar uma forma de tentar resolver. Há sempre essa preocupação. E isso é muito importante porque eles querem alguém. Eles se sentem totalmente isolados, totalmente desprezados pela sociedade e aí eles querem alguém para falar, um ombro amigo, eles já nos chamam pelo nome, já conhecem a gente, então a gente vai criando um vínculo muio forte.

Tem muitos casos fantásticos, de situação de agradecimento, de situação,de gratidão que eles passam para a gente. Muito momentos maravilhosos que a gente experimenta. É puro agradecimento.

Dizer que mudou. De dizer que alguém procurou casa de apoio, que procurou internamento. Essa semana mesmo uma pessoa, o Ricardo, que nos ajuda, veio falar que conseguiu colocar uma dessas pessoas de situação de rua em um emprego num supermercado. São essas cisas que nos deixam mais felizes.

BLOG NA BOCA DA NOITE – Vocês conseguem, nessas escutas, identificar um motivo comum a todos para que estejam em situação de rua?

TUCA VIEGAS – Acho, Márcio, que existem n fatores que levam as pessoas a viver em situação de rua: a situação econômica do país, custo de vida altíssimo, você não tem políticas sociais, políticas públicas que ajudem as pessoas mais necessitadas, você não tem amparo. Você não dá condições dessas pessoas viverem dignamente. A gente não tem condições de saúde dignas, a gente não tem condições de educação digna. A gente não tem condições de moradia digna, e muitas pessoas não se conformam com as coisas que acontecem e acham que o mundo está diferente, não conseguem ser ouvidas e a rua acaba sendo a fuga, acaba sendo o lugar onde elas ficam isoladas e então vão para lá para não entrar em conflito com ninguém. Muitas delas tem seus conflitos internos, muitos tem dependências químicas, álcool, drogas, então, existem n fatores. Lá você encontra pessoas que são formadas, pessoas que cursaram universidades, que trabalharam em várias empresas, pessoas que tem famílias que tem condições de sustentá-las, mas elas não tem condições de se adequar, ou a família não consegue se adequar a elas, então acabam usando a rua como fuga. Mas acho que a gente tem condições de tentar fazer um trabalho onde a gente possa melhorar a autoestima delas, poque muitas nem chegam nem perto da gente para pegar o alimento que a gente está doando porque tem vergonha, porque acham que estão fedorentos, porque acham que estão mal vestidos, sujos, e eles ficam com vergonha. O trabalho com a autoestima deles, de valorização deles como ser humano é fundamental.

BLOG NA BOCA DA NOITE – E para quem quiser se integrar a essa corrente do bem, e quiser ajudar, como deve proceder?

TUCA VIEGAS – Bem, que quiser ajudar, nós temos o Instagram, @vamosnosajudarnasruas, a gente tem a loja Espaço Maia, pode procurar no instagram @espaçomaia, é a loja do Dinarte, que abriu esse espaço para a gente e nos ajuda muito, inclusive com doações, várias pessoas ajudam muito, e eu fiz questão de ressaltar a questão do Dinarte porque é o nosso ponto de arrecadação, porque muitas pessoas não tem onde deixar nos lugares. A gente também busca a quem quiser doar, a gente vai até a casa das pessoas, a gente faz muito isso. A gente cozinha na casa da Cláudia, lá nas Barrocas, na Vesceslau Braz, então a gente faz essa busca. A gente também tem o pix para quem quiser fazer doações em dinheiro: é só acessar no Instagram que o pix está lá. Então é isso, em maio a gente fez 6 meses, mais de uma tonelada e meia de alimentos distribuídos, isso nos deixa muito orgulhosos. A gente tem vários projetos para continuar . A gente quer ter o nosso carrinho do banho, para eles tomarem banhos, fazer barba, cabelo. A gente quer ter ações constantes para fazer isso, para levar dentista, dermatologista, para fazer um trabalho clinico, de saúde com eles, para dar assistência, psicólogo. A gente quer ver se aumenta cada vez mais o que está fazendo. O sonho futuro é ter uma casa, um abrigo onde posa fornecer café, almoço e jantar, e lugar para dormir. Esse é o sonho. A gente quer muito isso. Quem sabe? A gente quer agradecer muito o espaço que vocês estão nos cedendo, parabéns e sucesso com o Na Boca da Noite.

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