* Márcio Alexandre
Poético, preocupante, inexorável. O tempo é assim. Múltiplo e inquietante. Tempo é dado verificável e é por isso que se diz que ele não espera. O tic-tac das horas mais preocupa do que acalma. Especialmente quando se tem muito a fazer. Principalmente quando se deixa para fazer depois.
Tempo também é percepção. E por ser assim, é incisivo, matreiro, sutil, “malandro”. Não dá para fazer quase nada contra ele. Muito menos pará-lo. Há décadas que o poeta nos alerta: “o tempo não para”.
Por outro lado, é possível adiantá-lo. Não é pressando os números dos aparelhos digitais. Tampouco fazendo os ponteiros correr mais rápido. Nem botando o pêndulo para bater mais forte.
A matéria-prima da velocidade do tempo é a ânsia, esse desejo de que as coisas aconteçam logo. Queimando etapas, deixando cru as vontades. Ignorando as fases.
Esse anseio voraz nos joga pra frente sem nos tirar do aqui e agora. Nos projeta no tempo, impedindo que curtamos cada tique do temporizador. Lança-nos adiante, aos trancos e barrancos. Sem saber o caminho e sem tocar no chão. Sem perceber a estrada, sem palmilhar o terreno. Sem sentirmos a poeira das coisas que passam por nós e pelas quais deveríamos esperar.
Com o tempo, a conversa é olho no olho, sentindo o bafo de Cronos, vivendo o toque do movimento dos ponteiros, a paciência do ir e vir do pêndulo. Sentindo isso como quem experimenta o nascer.
Sem essa percepção, a areia da ampulheta fica ainda mais fina, desidratada pela neurose do tempo perdido. Pelo vazio do nada feito. Quando não se respeita a liturgia das coisas, esvai-se a memória. Talvez fique uma vaga lembrança. Que logo o tempo levará.
* Jornalista

