* Márcio Alexandre
Ela não deixou de amá-lo. Deixou de amar. Que é muito mais grave. Ainda mais triste. Quase irrecuperável.
Deixou de sentir, de ver, de imaginar. Deixou de ver beleza nas coisas simples. De perceber amor nos gestos espontâneos. De imaginar o belo no natural.
Porque o preocupante não é quando não se gosta mais do outro. O caos é quando se deixa de amar. As pessoas, os momentos. Quando deixa-se de se importar. Quando abre-se mão de viver.
Não foi por trauma. Não lhe atingiu um drama. Não lhe fez morada uma decepção.
Foi aos poucos abrindo mão de pequenas concessões. Vendo crime em algumas licenciosidades. A ver a felicidade como um erro e o prazer como pecado.
Se integrou à modernidade desses tempos em que se amam templos e se idolatram estelionatários da fé.
Encapsulou sua vida numa ilusão religiosa. Numa pretensão fantasiosa. Abrindo mão daquilo que temos de mais belo: a capacidade de amar. Sem isso, a vida se torna um peso.
Quase não escuta música. Dificilmente ver jogos. Raramente lê poesia. Nunca vai a teatro. Não curte uma festa. Não lê um livro. Não assiste um filme. Transformou a vida num fardo. E o carrega como passaporte para o céu. Como se sofrimento fosse o ingresso para o paraíso.
* Professor e jornalista

