O Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, lembrado sábado (25/7), chama a atenção para um dado alarmante que mostra que ainda há muito o que avançar na luta antirracista: as mulheres negras são as principais vítimas da violência letal.
De acordo com o Atlas da Violência 2026, no Brasil, elas correspondem a 67,5% do número de vítimas de feminicídios. Além da elevada exposição à morte, muitas mulheres negras enfrentam condições de desproteção social, sendo maioria também quando o assunto é desemprego, subemprego, informalidade e baixa remuneração.
Para o Conselho Regional de Serviço Social do RN (CRESS-RN), essa realidade tem raízes históricas e expressa a articulação entre o racismo estrutural, o patriarcado e as desigualdades de classe, que restringem o acesso a direitos básicos.
Mas reduzir a experiência das mulheres negras à violência e à vulnerabilidade seria desconsiderar seu protagonismo histórico. “Apesar dessa realidade, são elas que sustentam cotidianamente famílias, comunidades e parte significativa da economia brasileira, ao mesmo tempo em que protagonizam processos de resistência, organização política e transformação social”, afirma a conselheira Samya Martins.
A assistente social ressalta, ainda, que, por meio da luta coletiva, as mulheres negras têm ampliado sua presença em espaços historicamente negados, como a universidade, a produção científica, a política, a gestão pública e os movimentos sociais.
O Serviço Social tem fortalecido uma produção de conhecimento e uma atuação comprometidas com a luta feminista, antirracista e de defesa dos direitos humanos. “O Conselho Federal e os Conselhos Regionais de Serviço Social têm incorporado, em seus posicionamentos, a defesa dos direitos das mulheres, o enfrentamento ao racismo, à LGBTfobia e à violência de gênero, compreendendo que essas lutas fazem parte do compromisso profissional com a justiça social”, reforça a conselheira.
A profissão é composta majoritariamente por mulheres, muitas delas negras, e as mulheres também representam a maior parte das usuárias das políticas públicas. “Reconhecer as especificidades das violências que atingem mulheres negras em sua diversidade é condição fundamental para uma atuação profissional crítica e comprometida com a transformação da realidade”, completa Samya.
Por fim, a assistente social destaca que as desigualdades também se expressam na violência doméstica, obstétrica e sexual, evidenciando a necessidade de políticas públicas que considerem as especificidades de gênero, raça e classe para garantia de direitos.
“Essa realidade atinge de forma ainda mais pungente as mulheres negras transgêneros e travestis, que, pela condição de ser, são expostas às formas mais bárbaras da violência cotidiana”, destaca.
De acordo com os dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), a expectativa de vida de mulheres trans no Brasil é de 35 anos, sendo inferior à metade da média nacional. As negras representam cerca de 96% das mortes registradas.
“Essa realidade é resultado de um processo histórico de transfobia estrutural e violações de direitos que fazem com quem o Brasil seja considerado um dos países que mais mata travestis e mulheres trans no mundo”, denuncia a conselheira.
Crédito da foto: Paulo Pinto – Agência Brasil

