Seis da tarde de segunda-feira, Via Costeira parada. Nas redes bolsonaristas, aquilo virou “multidão histórica”. No carro, o que tinha era gente exausta voltando do trabalho.
A motocarreata de Flávio Bolsonaro em Natal saiu do Centro de Convenções às 16h22 e travou o principal corredor que liga as praias da zona Sul ao resto da cidade. Escolha curiosa de horário: exatamente quando Natal inteira pega o volante para voltar para casa.
E aí está o truque que a foto aérea não conta. Vista de cima, fila de carro é fila de carro.
Não dá para saber quem buzinava por Flávio e quem buzinava porque queria só chegar em casa, pegar o filho na escola, jantar em paz.
Mas o vídeo de drone não faz essa distinção, e a campanha agradece: no corte para as redes, todo mundo vira apoiador.
O que se comenta nos bastidores é que essa é justamente a conta: quanto mais caos, maior a “multidão” no vídeo. O engarrafamento deixa de ser efeito colateral e vira cenografia.
Não é invenção potiguar. Disputa inflada de público é clássico mundial: Trump brigou dias com a imprensa americana jurando que sua posse teve a maior plateia da história, e as fotos mostravam o contrário. Número de multidão é sempre o primeiro campo de batalha da propaganda.
Enquanto isso, quem pagou a conta do espetáculo foi o trabalhador. Sem ser consultado, sem ser militante, ele virou figurante de campanha dentro do próprio carro.
Comício se mede por convencimento, não por congestionamento. (Fonte: Nos Bastidores do Poder)
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