“O Hospital de Allyson é uma farsa”. Ganhou força nos últimos dias a tese de que o ex-prefeito Allyson Bezerra (União Brasil) faltou com a verdade quando batizou uma policlínica médica, anunciada por ele próprio, como Hospital Municipal de Mossoró. De fato, a unidade instalada no campus da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), zona leste da cidade, não tem característica nem estrutura de hospital.
Para entender a polêmica é preciso voltar ao tempo. Na campanha eleitoral de 2024, Allyson, que era candidato à reeleição, prometeu construir o primeiro hospital municipal de Mossoró. Em março daquele ano, a sua gestão havia iniciado a construção da Policlínica Médica, que por meses ocupou a propaganda oficial. Allyson renovou o mandato com folgas, recebendo mais de 78% dos votos, o que motivou o projeto de disputar o Governo do Rio Grande do Norte.
Em outubro de 2025, já sendo visto como pré-candidato a governador, o então prefeito decidiu substituir a Policlínica Médica por Hospital Municipal, utilizando a mesma obra, o mesmo espaço e a mesma estrutura. Ou seja, trocou apenas o “selo”. Daí, ele passou a andar o Rio Grande do Norte com a propaganda de que havia construído um hospital.
Agora, quatro meses após a inauguração do “hospital”, a realidade veio à tona. Pacientes que procuraram a unidade com urgência e emergência não são atendidos. A unidade não conta com leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), não dispõe de leitos de retaguarda, não atende a casos graves de urgência e o mais absurdo, não funciona nos fins de semana.
Para especialistas do setor hospitalar, a unidade municipal, com as limitações que apresenta, caracteriza-se como uma policlínica médica, que é justamente a sua origem. O equipamento possui estrutura limitada, com apenas 10 leitos e sem UTI, o que restringe o atendimento a cirurgias eletivas simples e pacientes considerados de baixo risco. Além disso, os pacientes são previamente selecionados justamente para evitar situações de agravamento.
O secretário estadual de Saúde, infectologista Alexandre Motta, alerta sobre a ausência de suporte para eventuais intercorrências médicas. “Toda cirurgia tem algum grau de imprevisibilidade. Se acontecer uma situação dessa lá, ele vai ter que encaminhar esse paciente para alguma porta de urgência”, afirmou Alexandre, que questiona a iniciativa de Allyson de ter trocado o registro de policlínica por hospital, sem amparo legal.
“Todas as cirurgias que vão ser feitas lá são de pessoas que não envolvem risco. Qualquer um que tem um pouco mais de complicação eles não fazem, exatamente porque não têm estrutura suficiente para dar uma resposta”, criticou Motta em entrevista ao jornal Diário do RN.
A preocupação da Sesap, segundo o secretário, é justamente a ausência de suporte para eventuais intercorrências médicas. Segundo o secretário de Saúde, pacientes que apresentem complicações precisam ser transferidos para hospitais estaduais com suporte de UTI. “Recentemente dois pacientes foram encaminhados para o Hospital Regional Tarcísio Maia após intercorrências registradas no hospital municipal.”
A policlínica que foi batizada por Allyson Bezerra de “Hospital Municipal Francisca Conceição da Silva”, em homenagem a sua avó, só consegue fazer cirurgias eletivas de pequeno porte e, quando chega no fim de semana, fecha as portas. Questionado sobre a normalidade desse tipo de operação em uma unidade hospitalar, Alexandre Motta afirmou: “Do ponto de vista normal, não”.
Além disso, o hospital não funciona integrado à rede pública de saúde. “Todos os hospitais agem dentro de uma rede. O hospital de Mossoró age só para ele”, afirmou Motta. Ou seja, a própria Prefeitura regula os atendimentos e seleciona os procedimentos realizados. “Ele escolhe o que vai fazer. Vai pegar aqueles casos de média e baixa complexidade que não vão complicar”, declarou o secretário de Saúde.
Como não tem estrutura de hospital, não está integrado à rede pública de saúde, a unidade torna-se incapaz de ajudar a desafogar os hospitais estaduais, especialmente o Hospital Regional Tarcísio Maia, principal unidade de urgência e emergência de Mossoró e região Oeste. “O que Mossoró sempre precisou foram leitos de retaguarda. Isso, sim, ajudaria o sistema como um todo”, observou Alexandre Motta.

Página da Prefeitura de Mossoró destaca obra da policlínica médica em 17 de outubro de 2024
Na campanha de 2024, Allyson enalteceu a construção da policlínica
Em 2024, ano de sua reeleição à Prefeitura de Mossoró, Allyson Bezerra explorou a construção da Policlínica Médica, com investimento de quase R$ 7 milhões, recursos oriundos do projeto “Mossoró Realiza” por meio de empréstimo junto à Caixa Econômica Federal.
Quando assinou a ordem de serviços para início das obras, em 20 de março de 2024, o então prefeito disse que a policlínica contaria com diversas especialidades médicas, incluindo Angiologia, Cardiologia, Dermatologia, Endocrinologia, Ortopedia, Radiologia e Urologia, além da realização de exames como raio-x digital e endoscopia.
No seu discurso, repercutido pelas plataformas oficiais de comunicação, Allyson disse que a policlínica representaria um avanço significativo na descentralização dos serviços de saúde, beneficiando especialmente moradores da região do grande Alto de São Manoel, englobando os bairros vizinhos.
“A policlínica é uma das maiores obras que estamos realizando, trazendo atendimento especializado para perto da população e reduzindo filas no sistema de saúde”, discurso naquele momento.
Prefeitura confirma que atendimento só agendado nas UBSs

Em 2025, o pré-candidato a governador Allyson inaugurou a policlínica com nome de hospital
Diante da repercussão negativa, uma vez que o Hospital Municipal não consegue entregar o que a população espera e o seu atendimento é próprio de uma policlínica médica, o site oficial do município produziu conteúdo para enaltecer o “hospital de Allyson”.
Nesta terça-feira, 19, a página oficial noticiou que o “Hospital Municipal de Mossoró Francisca Conceição da Silva zerou a fila de pacientes à espera por cirurgias de hérnia, vesícula e histerectomia na Central de Regulação do município”, ressaltando que “a medida se deu após quatro meses de pleno funcionamento do complexo hospitalar que segue realizando cirurgias gerais e ginecológicas.”
“O Hospital Municipal foi aberto para acabar com esse gargalo da espera das pessoas de Mossoró por uma cirurgia geral ou ginecológica. Hoje, nas filas da regulação do município de Mossoró, nós não temos mais pacientes esperando cirurgias para vesícula, hérnia e histerectomia”, informou a secretária municipal de Saúde, Morgana Dantas.
A página oficial, no entanto, confirma as limitações da unidade ao noticiar que os atendimentos são agendados a partir da Central de Regulação do município. “Para ter acesso ao serviço, o paciente deve buscar a Unidade Básica de Saúde (UBS) de seu bairro ou comunidade para a equipe realizar o encaminhamento com as devidas orientações”, diz o conteúdo, deixando claro que o “hospital” não atende a quem procura na urgência, limitando-se ao paciente agendado em uma UBS.


