Mapa da corrupção mostra cidades com suspeitas de roubo de dinheiro da Saúde, de acordo com a Mederi

Pelo menos 23 municípios foram mencionados em investigações feitas pela CGU e Polícia Federal

por Ugmar Nogueira
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Do Blog do Dina

A Operação Mederi cabe num mapa — e o mapa tem cores diferentes. Os documentos que o Blog do Dina leu, a representação criminal do Ministério Público Federal e a quebra de sigilo autorizada pela Justiça, colocam mais de vinte prefeituras do Rio Grande do Norte dentro do mesmo esquema de desvio na compra de remédios. O que muda de uma cidade para outra é o tamanho da prova que a Polícia Federal já tem em mãos.

As condutas descritas nos autos, se confirmadas, podem configurar corrupção, fraude à licitação, peculato, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Nesta reportagem, nenhum agente público é nomeado: a operação corre sob segredo de justiça. Alguns dos agentes públicos são investigados, outros, ainda não. Por enquanto, não há condenações.

Acompanhe a cobertura do caso completa

Três graus de prova

Há, grosso modo, três situações. Na primeira, a fraude está descrita: existe escuta ambiental, vídeo ou auditoria federal registrando o mecanismo do desvio. Na segunda, o que existe é o rastro do dinheiro — relatórios de inteligência financeira, quebras bancárias e cruzamentos com o Tribunal de Contas que apontam repasses fora de proporção. E na terceira, a cidade é apenas uma menção: o fundo municipal de saúde aparece no anexo financeiro, com créditos que coincidem no tempo com saques em espécie.

Mais de 20 prefeituras do Rio Grande do Norte aparecem no esquema de desvio na compra de remédios, em graus diferentes de prova. Nenhum investigado é nomeado — a operação corre sob segredo de justiça e todos os citados respondem como investigados, não condenados.

Mossoró – Regra dos 25% por ordem de compra destinada a agentes públicos da gestão. A PF estima uma propina teórica de cerca de R$ 833 mil.
Serra do Mel – 20% de propina sobre R$ 16 mi em asfalto (R$ 3,2 mi). Investigados fotografavam viaturas da CGU. Remédio com um dia de validade.
São Miguel – “Aumenta o quantitativo pra que o preço diminua.” A organização social que intermedia a saúde fica com 5% de tudo.
José da Penha – Nota fria vira “papel cagado”; um pregoeiro é descrito como capaz de “reabrir o lote dez vezes” até ganhar quem se quer.
Paraú – Um vídeo da PF mostra um agente público recebendo cerca de R$ 6.700 em espécie dentro da sede da empresa — os 10% de uma conta.
Pau dos Ferros –  Licitação “armada”, com medicamentos controlados usados como isca para afastar concorrentes. “85% da licitação todinha.”
Porto do Mangue –  Um agente público admite atender “sem licitação, na tora”. Pregoeiro com 141 mensagens; adesão de R$ 570 mil com a drogaria do grupo.
Caraúbas – Dispensas de licitação manipuladas: “estão fazendo essa dispensa na cachorrada”.
Grossos – Uma escuta calcula R$ 50 mil a serem entregues a uma agente pública: “se a gente não der os 50 [a ela], nós se queima”.
Triunfo Potiguar – “Carta branca” de uma agente pública numa licitação em que se ganhou “700 e pouco”, mas se publicou “só cento e poucos mil”.
Felipe Guerra – Um aditivo de 25% no contrato serviria, segundo as escutas, para “ganhar mais de 100 conto”.
Touros – Um agente público do município teria procurado o grupo para participar de uma licitação.
Patu – A auditoria da CGU encontrou R$ 829,7 mil de recursos federais da saúde usados para pagar folha, com um fornecedor sem licitação.
Santana do Matos e Bodó – O ponto de partida: genérico entregue no lugar de remédio de marca, cobrado como o de referência. Dano de R$ 9.584,99 (acordo).
Rastro do dinheiro7 cidades – A peça não é a voz, é o extrato: Coaf, quebras bancárias e cruzamentos com o Tribunal de Contas apontam repasses que a investigação ainda detalha.
Tibau – Um agente público recebeu R$ 20.170 da drogaria do grupo e já tinha histórico de comunicação de operações suspeitas ao Coaf.
Rodolfo Fernandes –  A prefeitura repassou R$ 881,1 mil à empresa, com salto em 2021. Uma cidade de menos de 5 mil habitantes.
Severiano Melo –  Um ex-gestor já condenado por fraude em licitação de unidade de saúde aparece entre os que receberam recursos ligados à empresa.
Campo Grande – O cruzamento com o TCE aponta R$ 333.583,99 pagos à empresa (2023–2025). Um agente público surge na agenda de investigados.
Lucrécia –  Agentes públicos do município, incluindo o primeiro escalão da saúde, aparecem vinculados a vários investigados por telefone.
Upanema – A Câmara Municipal remeteu R$ 122,6 mil no rastreamento financeiro.
Angicos – Um agente público repassou R$ 124.970 a uma pessoa ligada ao grupo.
Apenas uma menção – 2 cidades
O fundo municipal de saúde aparece no anexo financeiro, com créditos que coincidem no tempo com saques em espécie. O tipo de citação que costuma abrir a fase seguinte de uma apuração.
Jardim do Seridó – Fundo Municipal de Saúde entre os remetentes cujos créditos coincidem com saques fracionados.
Ipanguaçu – Fundo Municipal de Saúde entre os remetentes cujos créditos coincidem com saques fracionados.
O tamanho do mapa: R$ 146,7 milhões movimentados em menos de dois anos, um faturamento que cresceu 2.096% em cinco anos e um pedido de bloqueio de R$ 13,3 milhões. Nas palavras de um dos operadores, em escuta: “eu tenho umas 15 prefeituras”.
Fontes: representação criminal do MPF e quebra de sigilo autorizada pela Justiça (Operação Mederi). Investigados não são nomeados; nenhum foi condenado.Blog do Dina

O que vem agora

O Blog do Dina segue na apuração. Os autos trazem nomes — de gestores, operadores e beneficiários apontados nas escutas —, e o próximo passo desta reportagem é acompanhar os desdobramentos das investigações enquanto seguiremos tentando produzir nossas próprias reportagens.

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