* Márcio Alexandre
Há muitos conceitos, acadêmicos, técnicos e sociais para definir o jornalismo. Um dos mais recorrentes é aquele cunhado pelo historiador Robert Darton, para quem o jornalismo é uma forma de contar o presente. Para desempenhar esse ofício, nessa perspectiva, cabe ao jornalista uma das tarefas mais espinhosas e necessárias desse labor: questionar.
Foi por um questionamento – simples, comum e quase inofensivo – que o jornalista Heitor Gregório (a quem só conheço pela pena) foi demitido. O “crime”: perguntar, durante uma das muitas crises que se abatem sobre Natal, onde estaria o prefeito Paulinho Freire (UB). Questionamento pertinente, principalmente porque num dos momentos em que a cidade mais precisava do gestor, ele estava em uma festa de bacana. Em São Paulo.
Mas a demissão de Heitor Gregório não se deu seguindo ritos, no escritório do chefe ou por meio de comunicado. O jornalista foi demitido pelo dono da Tribuna do Norte, empresário Flávio Azevedo, publicamente. Não sem antes, censurá-lo, expô-lo e constrangê-lo. Nas redes sociais, essa praça pública de apedrejar reputações.
Flávio, vejam só – suplente de Senador – cometeu vários crimes contra Heitor. Réu confesso, o empresário tentou um atenuante: disse que a crítica de Heitor a Paulinho o constrangia por serem – ele e o gestor – amigos de longas datas. Como se o Jornalismo se subjugasse a compadrios, paternalismos ou conchavos. O Jornalismo é, antes de tudo, antídoto a tudo isso.
Flávio Azevedo mirou em Heitor e acertou em todos. No bom senso. Na liberdade de imprensa. No direito ao exercício da livre manifestação do pensamento. Cometendo crimes, repita-se. E aqui não é nenhum exagero de retórica. É apenas a expressão do que diz nossa Legislação.
Como suplente de senador – tendo inclusive exercido o cargo por 121 dias – Flávio Azevedo deveria ter conhecimento do que estabelece a Constituição Federal em seus artigos 5º e 220. Se não sabe do que se trata, mostra sua inutilidade para o Senado e para o país. Se o sabe, se traveste de criminoso, afinal de contas o parágrafo 2º do último dispositivo acima citado diz, de forma clara: “é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”.
Para aliviar o amigo Paulinho ou para mostrar quem manda – o discurso de ancestralidade evocado por Flávio visa muito mais apontar para o passado coronelista do qual foi contemporâneo do que para justificar afetos – o suplente incorreu em práticas proibidas por lei.
Que pague pelos malfeitos. Nas esferas trabalhista, cível e até criminal. Ele deixou pegadas em todos os artigos que infringiu. Talvez imaginando que como suplente de senador a lei não o alcance. Sua cognição parece não tê-la alcançado.
PS. A Heitor, nossa solidariedade.
A Flávio, que aprenda com o erro. Mas que antes pague pelos crimes.
* Jornalista