O Bairro Dom Jaime Câmara, localizado na zona leste de Mossoró, às margens da BR-304, completa neste ano 40 anos de história. Inaugurado em 26 de setembro de 1986, durante a gestão do então governador José Agripino Maia, o bairro nasceu do sonho da casa própria e se consolidou graças ao esforço dos seus moradores, do pequeno comércio, das igrejas, das escolas, dos movimentos sociais e das iniciativas culturais que ajudaram a construir uma identidade comunitária forte e solidária.
Hoje, porém, essa mesma comunidade vive um dos períodos mais difíceis de sua trajetória.
Há mais de 60 dias, a população convive com o medo provocado pelo confronto entre grupos criminosos que disputam o controle do território. O som das motocicletas, dos estampidos e das notícias de ameaças substituiu o barulho das crianças brincando nas ruas. O resultado é uma comunidade invisível, onde milhares de pessoas seguem suas vidas cercadas pelo receio de sair de casa, trabalhar ou levar os filhos à escola.
A consequência mais cruel dessa realidade já começa a aparecer nas salas de aula. A principal escola estadual do bairro, com mais de 300 alunos matriculados, registra dias em que pouco mais de 70 estudantes comparecem às atividades. Na Unidade de Educação Infantil (UEI), há turnos em que apenas cinco crianças frequentam a creche. Famílias inteiras deixaram suas casas, enquanto pais e mães vivem o dilema diário entre garantir a educação dos filhos e protegê-los da violência.
Quando uma criança deixa de estudar por medo de morrer no caminho da escola, o problema já ultrapassou a esfera da segurança pública. Trata-se de uma grave crise social e humanitária.
Reduzir esse cenário ao envio eventual de viaturas é ignorar a complexidade do problema. O enfrentamento da violência exige policiamento eficiente, mas também requer a presença permanente do Estado em suas diversas formas: assistência social, saúde, educação, cultura, esporte, geração de emprego e fortalecimento dos vínculos comunitários.
É preciso garantir que equipamentos públicos como o CRAS, as Unidades Básicas de Saúde, as escolas, as creches, as igrejas e as organizações da sociedade civil continuem funcionando e recebam apoio institucional para proteger a população. O abandono desses espaços abre caminho para que o medo ocupe o lugar da cidadania.
O Dom Jaime Câmara não precisa apenas de operações policiais. Precisa de uma estratégia integrada de proteção social que alcance as famílias antes, durante e depois dos episódios de violência. Precisa de políticas públicas voltadas para a juventude, com investimentos em cultura, arte, esporte e qualificação profissional. É necessário oferecer oportunidades para que os jovens encontrem perspectivas de futuro longe das dinâmicas da criminalidade.
A ausência do poder público não é neutra. Quando o Estado se faz pequeno nas periferias, a violência cresce. Quando a escola esvazia, o futuro se enfraquece. Quando a cultura perde espaço, a desesperança ganha terreno.
A história do Dom Jaime Câmara foi construída por trabalhadores, educadores, artistas populares e lideranças comunitárias que acreditaram no potencial da periferia. Não é aceitável que quatro décadas de conquistas sejam colocadas em risco pela incapacidade de oferecer respostas efetivas a uma população que apenas reivindica o direito de viver em paz.
Como destaca o diretor da Fundação Potiguar, Ugmar Nogueira, o enfrentamento da violência não pode se limitar à repressão. “Precisamos de um conjunto de ações que fortaleçam a arte, a cultura, a educação e a geração de emprego e renda. O maior desafio é construir uma política pública capaz de impedir que a violência encontre espaço para se reproduzir.”
Enquanto o poder público hesita e suas ações não alcançam a dimensão da crise, a violência segue destruindo sonhos, afastando crianças das escolas, desestruturando famílias e enfraquecendo uma comunidade que sempre foi símbolo de luta e resistência.
O Dom Jaime Câmara não pede privilégios. Pede presença. Pede políticas públicas. Pede que o Estado volte a ocupar o espaço que nunca deveria ter abandonado.


