No xadrez político do segundo turno no Rio Grande do Norte, a neutralidade do ex-prefeito Allyson Bezerra (União Brasil) em relação à disputa presidencial entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) vem sendo tratada por sua equipe como um movimento de pura prudência pragmática.
O raciocínio é muito simples: calar-se sobre apoio a presidente para não perder votos no interior. No entanto, quando confrontada com a realidade das bases municipais, a estratégia expõe um incômodo duplo padrão.
Nos municípios do RN, a cobrança do candidato aos seus aliados é explícita e rigorosa. Prefeitos, vereadores e lideranças regionais são chamados a fechar fileiras, pedir votos de porta em porta e demonstrar lealdade irrestrita ao projeto pessoal dele. Exige-se da base local um posicionamento firme, público e sem margem para ambiguidades.
É justamente aí que a conta deixa de fechar para o eleitorado e para os próprios apoiadores.
Se um líder político exige clareza, empenho e fidelidade absoluta de quem o apoia no interior, é natural e legítimo que esses mesmos aliados e eleitores esperem dele a mesma transparência sobre o rumo que ele defende para o país.
A postura de pedir o empenho da direita antipetista, sob a promessa implícita de ser a única alternativa ao PT no estado, enquanto se esquiva de assumir um palanque nacional gera uma sensação inevitável de assimetria.
Para a militância conservadora e para os prefeitos que colocam suas reputações em jogo no interior, o silêncio do candidato deixa de soar como “diplomacia institucional” e passa a ser lido como conveniência eleitoral.
Além disso, a justificativa de que a neutralidade é necessária para “governar com qualquer presidente” esbarra na prática da administração pública. Repasses constitucionais e verbas federais não dependem de alinhamento cego em palanques, mas sim da eficiência de projetos e da força das bancadas parlamentares.
O preço da ambiguidade na reta final
Do ponto de vista puramente estratégico, o silêncio pode até servir como um escudo momentâneo para evitar a rejeição de eleitores moderados ou lulistas insatisfeitos com a gestão estadual. Mas do ponto de vista do respeito ao eleitor e da liderança política, a cobrança por definição é 100% legítima.
Em uma eleição decisiva e marcada pelo afunilamento dos discursos, cobrar lealdade sem oferecer clareza é um teste de resistência para a própria base. Afinal, quem pede a confiança do cidadão para comandar o Estado precisa demonstrar a coragem de dizer para onde quer levar o país.

