A conta do silêncio: até quando Allyson pode cobrar lealdade da base sem dizer em quem vota para presidente?

Ex-prefeito parece querer apostar em suposta despolitização do eleitor

por Ugmar Nogueira
A+A-
Reiniciar

 

No xadrez político do segundo turno no Rio Grande do Norte, a neutralidade do ex-prefeito Allyson Bezerra (União Brasil) em relação à disputa presidencial entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) vem sendo tratada por sua equipe como um movimento de pura prudência pragmática.

O raciocínio é muito simples: calar-se sobre apoio a presidente para não perder votos no interior. No entanto, quando confrontada com a realidade das bases municipais, a estratégia expõe um incômodo duplo padrão.

Nos municípios do RN, a cobrança do candidato aos seus aliados é explícita e rigorosa. Prefeitos, vereadores e lideranças regionais são chamados a fechar fileiras, pedir votos de porta em porta e demonstrar lealdade irrestrita ao projeto pessoal dele. Exige-se da base local um posicionamento firme, público e sem margem para ambiguidades.

É justamente aí que a conta deixa de fechar para o eleitorado e para os próprios apoiadores.

Se um líder político exige clareza, empenho e fidelidade absoluta de quem o apoia no interior, é natural e legítimo que esses mesmos aliados e eleitores esperem dele a mesma transparência sobre o rumo que ele defende para o país.

A postura de pedir o empenho da direita antipetista, sob a promessa implícita de ser a única alternativa ao PT no estado, enquanto se esquiva de assumir um palanque nacional gera uma sensação inevitável de assimetria.

Para a militância conservadora e para os prefeitos que colocam suas reputações em jogo no interior, o silêncio do candidato deixa de soar como “diplomacia institucional” e passa a ser lido como conveniência eleitoral.

Além disso, a justificativa de que a neutralidade é necessária para “governar com qualquer presidente” esbarra na prática da administração pública. Repasses constitucionais e verbas federais não dependem de alinhamento cego em palanques, mas sim da eficiência de projetos e da força das bancadas parlamentares.

O preço da ambiguidade na reta final
Do ponto de vista puramente estratégico, o silêncio pode até servir como um escudo momentâneo para evitar a rejeição de eleitores moderados ou lulistas insatisfeitos com a gestão estadual. Mas do ponto de vista do respeito ao eleitor e da liderança política, a cobrança por definição é 100% legítima.

Em uma eleição decisiva e marcada pelo afunilamento dos discursos, cobrar lealdade sem oferecer clareza é um teste de resistência para a própria base. Afinal, quem pede a confiança do cidadão para comandar o Estado precisa demonstrar a coragem de dizer para onde quer levar o país.

Postagens relacionadas

Deixe um comentário

* Ao usar este formulário, você concorda com o armazenamento e o manuseio dos seus dados por este site.

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Assumiremos que você está ok com isso, mas você pode optar por não participar se desejar. Aceitar Leia mais