Márcio Alexandre

Especial para o Blog na Boca da Noite

 

Há mais ou menos um mês um grupo de desportistas organizou uma competição em Mossoró. Correram atrás de patrocínios, buscaram espaços para a disputa, contactaram adeptos da modalidade. Tudo terminado, faltaram R$ 500 para pagar a arbitragem. Recorreram então à Prefeitura de Mossoró e, pasmem, a gestão municipal respondeu que não tinham como oferecer aquela ajuda financeira que os desportistas precisavam.

Essa situação retrata, de forma fidedigna, o descaso a que é relegado o esporte pelas autoridades locais. Seja amador ou profissional. Não importa a cor partidária do prefeito ou prefeita da hora, o desprezo é o mesmo. Embora o – fácil – discurso seja de valorização, na prática, o que acontece é bem diferente.

O Blog Boca da Noite apresenta, nesta matéria especial, um panorama de como o esporte – especialmente o amador – é visto pelo poder público: à margem, e sem apoio. Acompanhamos competições, visitamos locais de prática de esportes, conversamos com desportistas, organizadores de competições, árbitros, jogadores, ciclistas, e para todos e em todos os lugares, a certeza é uma só: em Mossoró, o esporte cresce, apesar da total falta de apoio oficial.

Em praças e quadras; em campos de chão batido e nas veredas da nossa caatinga; nas ruas e estradas, há sempre pessoas praticando algum esporte. O futebol ainda é a modalidade com maior número de praticantes, mas também tem muita gente pedalando, muitos praticando skate, um sem número jogando futebol de salão, centenas no basquetebol, alguns milhares correndo. E a lista não para de crescer.

Na maioria das vezes, os praticantes são aqueles que também organizam as competições. E os esforços são sempre pessoais. Há modalidades, como o futsal feminino, que em Mossoró ainda não ocorreu nenhuma competição, seja organizada por particulares ou pelo município. “São muitas as dificuldades. Quando vamos participar de competições é correndo atrás de apoio, fazendo rifas, às vezes tirando do próprio bolso”, relata Leandro Barbosa, que há pouco mais de 3 meses participa de projeto criado para inserir mulheres na prática do futebol de salão.

“Infelizmente o poder público não tem o esporte como prioridade. Na minha opinião deixa muito a desejar”, analisa o ciclista Moacir Júnior, reforçando a fala de todos os demais entrevistados para essa reportagem.

Um organizador de um campeonato de futebol da periferia de Mossoró diz lamentar que o município não tenha um calendário esportivo. “Quando a gente busca apoio, é o secretário que tira do próprio bolso. Não existe política pública nessa área. E Isso não é de hoje”, avalia o desportista, pedindo sigilo quando sua identidade.

Jacqueline Pereira, da comunidade Nova Vida, é outra mulher apaixonada pelo esporte, especialmente o futebol de salão. Tem lutado quase sozinha para manter vivo o sonho dela e de outras 15 mulheres a praticar a modalidade. “A dificuldade é total: falta de bola, objetos de treinamentos, uniformes, coisas básicas para treinamento do time”, lamenta.

No caso do ciclismo, o esportista Moacir Júnior lembra da má gestão da ciclovia da avenida João da Escóssia. “Nunca houve uma fiscalização e a ciclovia era usada como estacionamento. Depois que recapearam a avenida, até a sinalização de ciclovia tiraram”, denuncia.

Outro fato reforça o descaso relegado ao esporte na cidade: O Atlético Mossoroense Feminino vai participar nos próximos dias de um campeonato em Caicó. Só o aluguel do ônibus vai custar R$ 1.300,00. É uma viagem com custo total próximo a R$ 2 mil. “Estamos na batalha, buscando patrocínio no comércio do bairro, vendendo rifas, se cotizando”, diz William Sousa, presidente do clube. Ele diz que já desistiu de buscar apoio da prefeitura. “A resposta é sempre negativa”, relata.

O desportista Allyson Higínio é árbitro de futebol e também organizador de competições. Para incentivar a prática desse esporte, ele mantém um campeonato para o qual convida equipes e essas pagam taxa de inscrição e por partidas. “Somo tudo que recebo dessas taxas, tira 50% para o campeão, 25% para o vice, e os o 25% restantes utilizo para cobrir as despesas”, frisa, acrescentando que não recebe apoio nenhum do poder público. A exemplo do que acontece com outros que lutam pelo esporte na cidade.

Versão – O Blog na Boca da Noite buscou a Prefeitura de Mossoró para falar sobre o assunto. Na manhã da quarta-feira, 8/9, falamos, por mensagem de celular, com o secretário de Cultura, Júnior Xavier. Ele solicitou que contactássemos a Comunicação do município para agendamento da entrevista.

Falamos com o setor, que nos indicou o jornalista responsável pela assessoria da pasta esportiva. Solicitamos a entrevista para as 15h da quinta-feira, 9/9. Gostaríamos de que a conversa fosse presencial. O jornalista apontou a dificuldade do encontro em face da agenda apertada do secretário. Ontem pela manhã, procuramos o assessor para saber a possibilidade de sermos recebidos à tarde. Informou que não teria como. Solicitou as questões da pauta. Enviamos, mas até o fechamento desta matéria (9h30 desta sexta-feira, 10/9), não tínhamos recebido o retorno.

 

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