A decisão da pré-candidata a deputada estadual Cinthia Pinheiro de adotar o nome político “Cinthia de Alyson” para a disputa eleitoral de 2026 abriu espaço para um debate que vai além do marketing de campanha. A mudança levanta questionamentos sobre identidade política, protagonismo feminino e o papel das estratégias eleitorais em um estado historicamente marcado pela liderança das mulheres na vida pública.
Para alguns analistas, a utilização do nome do prefeito de Mossoró, Alyson Bezerra, representa uma estratégia legítima de comunicação eleitoral, aproveitando o capital político e a identificação popular construída pelo gestor municipal. Outros, no entanto, enxergam na decisão um possível esvaziamento da identidade política própria da candidata, justamente em um momento em que a participação feminina ganha cada vez mais destaque no cenário nacional.
O debate ganha relevância especialmente no Rio Grande do Norte, estado que ocupa um lugar singular na história da participação das mulheres na política brasileira. Foi em Mossoró que a professora Celina Guimarães Viana tornou-se a primeira mulher a exercer o direito ao voto na América Latina, em 1927. No ano seguinte, Alzira Soriano foi eleita a primeira prefeita do Brasil e da América Latina, no município de Lajes.
O pioneirismo potiguar também se consolidou com a eleição de Maria do Céu Fernandes, primeira mulher eleita deputada estadual do Brasil, em 1934. Aos 24 anos, ela percorreu diversas cidades defendendo a ampliação da participação feminina na política e tornou-se uma das principais vozes do Legislativo potiguar da época.
Outro dado que reforça esse protagonismo é o fato de o Rio Grande do Norte ser o estado brasileiro com o maior número de mulheres eleitas governadoras. O Executivo estadual já foi comandado por Wilma de Faria, Rosalba Ciarlini e Fátima Bezerra, um feito sem paralelo em outras unidades da federação.
Diante desse histórico, a escolha de um nome político vinculado à figura do marido gera diferentes interpretações. Há quem considere a medida uma estratégia eleitoral semelhante à adotada por diversos candidatos em todo o país, que utilizam sobrenomes familiares ou associações com lideranças populares para ampliar reconhecimento junto ao eleitorado. Por outro lado, setores que defendem o fortalecimento da autonomia feminina na política argumentam que a construção de uma identidade própria continua sendo um elemento importante para ampliar a representatividade das mulheres nos espaços de poder.
O caso também resgata episódios simbólicos da história política do estado. Registros históricos apontam que Maria do Céu Fernandes fazia questão de construir sua trajetória pública de forma independente, preservando sua atuação política e sua imagem como expressão da luta pela participação das mulheres na sociedade.
Mais do que uma simples alteração de nome de urna, a escolha de Cinthia reacende uma discussão contemporânea: até que ponto a associação a uma liderança política consolidada fortalece uma candidatura e em que medida a construção de uma identidade própria continua sendo um valor importante para a representatividade feminina? A resposta, como em toda democracia, ficará a cargo do debate público e do julgamento do eleitorado.


