* Márcio Alexandre

 

Era uma sexta-feira quando ela deixou o pai numa UTI com covid. O medo, a angústia, o desassossego e a insegurança a atormentavam. Seu pai, amigo e confidente; arrimo e certeza, agora num leito de hospital com uma doença para a qual pouco se sabia e muito se temia. Apesar de tudo, a fé de que tudo daria certo.

Outras situações a faziam perder o chão. Mãe, marido e irmãos também contaminados pelo novo coronavírus. E o perigo do filho menor também adoecer. Não estava fácil. Não é fácil. Pra ninguém.

Mas as forças foram chegando, e ela passou a fazer o que era necessário. As coisas começaram a se arrumar e quando tudo parecia que o mar se acalmaria, veio a tormenta: poucos dias depois o pai perdeu a batalha para a covid. Era o prenúncio do seu fim.

Com muito amor a todos os demais parentes, uma força divina a ligava de maneira dadivosa ao genitor. E agora, ela estava ali, sem ele. À beira de um abismo. A ferida no peito e a necessidade de agir. Mesmo com toda a dor, havia esperança. É ela um dos princípios da fé. É em Deus que reside a esperança.

Havia outros a serem cuidados. Era necessário cuidar das exéquias do pai. Enquanto as dúvidas tomavam conta da sua mente, Deus agia em seu coração. Sozinha, demonstrou uma força inexpugnável, e que jamais imaginava ter, ao acompanhar o carro funerário, sem qualquer amparo afetivo de outra pessoa naquele momento, para a última despedida.

Ao testemunhar, na última quinta-feira, num grupo de oração a dolorosa situação vivida, demonstrava ter muito forte em sua mente o propósito de Deus para tudo aquilo que tinha acontecido. Para o pai, a certeza do descanso celestial. Para ela, a importância de servir a Ele.

Enquanto relatava cada fato da angustiante experiência, muitos choravam. Alguns com a boca. Outros com os olhos. Todos com o coração. Compadecidos, mas sobretudo irmanados. A dor que ela não mais sentia também chegou a todos porque se sentiam iguais. Na alegria, e na tristeza, mas especialmente em Cristo.

Aquele momento de prece e de súplica dava mais uma demonstração de predição divina, a de nos igualar no momento do sofrimento, nos trazendo a certeza de que sagrado é o onde se sente a dor do outro.  É por isso que todo lugar em que se tem gente reunida em nome de Deus vira templo.

 

* Professor e jornalista

 

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