Era manhã de 26 de maio do ano passado quando o representante comercial Sidney Carlos de Melo entrou no escritório da Dismed Distribuidora de Medicamentos, na Rua Leonardo Teixeira, em Mossoró. Sentou. Olhou para José Moabe Zacarias Soares, um dos sócios da empresa, e disparou: “chega mais outra de Apodi hoje, outra ordem”.
A conversa que veio depois — gravada pelos equipamentos da Polícia Federal escondidos na sala — é uma das que motivaram o juiz Rogério Fialho Moreira a determinar a Operação Mederi. E mostra como o esquema da Dismed que tinha Mossoró como centro chegou a outras duas prefeituras do Oeste potiguar: Apodi e Pau dos Ferros.
A Polícia Federal resume, na quebra de sigilo enviado ao TRF-5: “esse dinheiro está sendo fracionado e retornando, na forma de comissões/propinas, para as mãos de quem representa a Prefeitura que realizou os repasses”. A frase serve para o esquema inteiro. Mas o tópico em que ela aparece tem título específico: “Moabe x Oseas x Sidney — Pagamento de comissão em Apodi/RN”.
Um ano depois, em 2026, os prefeitos que governam Apodi e Pau dos Ferros — e o ex-prefeito de Apodi sob cuja gestão começaram os contratos da Dismed — declararam apoio público à pré-candidatura do principal investigado da operação: o ex-prefeito de Mossoró Allyson Leandro Bezerra Silva, hoje pré-candidato ao Governo do Rio Grande do Norte pelo União Brasil.
A ordem que chegou de Apodi
Cinco dias antes do diálogo de 26 de maio de 2025, Sidney já tinha tratado de Apodi com Moabe e Oseas Monthalggan, o outro sócio. O diálogo é seco:
Moabe: E Apodi?
Sidney: Sim, já falei com Apodi, deixa eu dizer: falei com Apodi é, o chefe tá em Brasília, chega sexta-feira e segunda para, aí deixa eu dizer: ele vai mandar faturar mais uns oitenta mil reais, viu? O resto do saldo que tem no contrato.
Moabe: Ele só não gosta de remédio lá, né?
Sidney: Heim?
Moabe: Gosta de remédio não, né isso?
Oseas: Gosta mais de papel, ele!
“Papel” é código. Em outras passagens da mesma escuta, Oseas chama o pagamento sem entrega de mercadoria de “papel cagado” — nota fria, dinheiro saindo do cofre municipal sem que o medicamento contratado tenha sido entregue.
A escuta de 26 de maio detalha a operação. Sidney apresenta os dois pagamentos que tinham acabado de cair na conta da Dismed: R$ 46.763 de Apodi e R$ 60.863 de Venha Ver, no extremo Oeste potiguar. Oseas pega o lápis e responde: “Foi a quinze que a gente fez, foi?”. Sidney confirma: “É!”. Os mesmos 15% que outros áudios — captados na mesma sede da Dismed, em 13 de maio de 2025 — atribuem ao prefeito de Mossoró Allyson Bezerra.

A licitação preparada
Na mesma semana, Sidney foi mais explícito sobre Pau dos Ferros. A transcrição da PF do arquivo Rec1_20250521_151635:
Sidney: Preparada aqui, preparada aqui a licitação de Pau dos Ferros… quatro lotes controlado, vamos fazer agora um quinto lote de injetável. O que é que a gente está fazendo! Botando os controlados no meio dos lotes, porque esses vagabundos aqui da Multimed não entram porque não tem… empresazinhas pequenas. Nós vamos competir só com [inaudível]… a gente engole ele!
“Botar os controlados no meio dos lotes” significa exigir requisitos técnicos de medicamento controlado em lotes amplos — o que elimina as distribuidoras menores que não têm autorização da Anvisa para esse tipo de produto. Sidney chega a quantificar: “A gente já tá… nós vamos chegar a 100 mil lá em Pau dos Ferros de material”. Em outro trecho, falando do mesmo certame: “a gente ficou com oitenta e cinco por cento da licitação todinha… foi quase setecentos e poucos mil”.
O sistema de caronas
A relação entre as compras dos municípios não é coincidência. As próprias escutas registram que a Dismed e a Drogaria Mais Saúde — duas empresas da mesma família, com CNPJs distintos — operavam um modelo de expansão por adesão a ata de registro de preços. Em jargão administrativo: “carona”. Em jargão interno do esquema: também “carona”.
Um áudio recuperado pela Polícia Federal do backup do WhatsApp da Drogaria Mais Saúde e citado na peça do TRF-5 é uma oferta direta a um secretário ou prefeito:
“Se você não quiser abrir um processo licitatório e você não tiver ninguém em mente para comprar a gente tem uma ata de registro de preço que o município pode aderir. Inclusive na gestão passada a gente entrou aí através de uma adesão. Tá certo? Se você tiver interesse e quiser vir um dia conversar comigo em Mossoró, a gente marca e eu explico bem direitinho. (…) Porque aí a gente faz a adesão da ata de onde eu já tenho licitado encaixa aí para vocês e a gente faz uma parceria bacana, tá bom?”
A frase descreve o método e o produto. Quem adere economiza tempo, evita licitação própria e recebe um pacote pronto.
A “carona” também gera comissão para quem opera o jogo. Em gravação de maio de 2025, Raimundo Wandecy Campelo Gurgel — vulgo Nenén, ex-sócio e funcionário da Dismed — relata ao pregoeiro de José da Penha, Fabiano Ferreira Alves:
“homem, ajeite as CARONA, toda CARONA você tem o seu!”
A Polícia Federal interpreta: a frase evidencia “expectativa de que Fabiano receberia valores em cada operação de adesão a ata de registro de preços”. Nenén, na mesma conversa, instrui formalmente: “Você quando vai fazer uma CARONA, você não vai fazer não, quem vai fazer é o seu secretário. A gente ajuda a você porque você tem que ajudar o cara que vai fazer”. A decisão formal cabe à autoridade superior; o pregoeiro, na operação, lucra por baixo.
A perícia da Polícia Federal foi mais longe. No dia 27 de janeiro de 2026, quando os mandados de busca foram cumpridos na sede da Dismed, em Mossoró, três computadores foram localizados ligados e sem senha na sala de apoio à diretoria. O Relatório de Diligências assinado pelo delegado Luiz Carlos Ratto Tempestini registra:
“foi localizado dentro do sistema/servidor da empresa Dismed uma pasta denominada MAIS SAÚDE contendo diversos documentos relacionados à licitação, habilitações, listas de pregões em que a empresa MAIS SAÚDE participaria, todos dentro do Sistema da empresa SISMED, o que, em tese, haveria indícios de que poderia tratar-se de uma empresa só.”
No mesmo computador, segundo a peça policial, foram localizadas fotografias de documentos das prefeituras de Grossos, Caraúbas, Areia Branca, Porto do Mangue e Pau dos Ferros — uma agenda compartilhada de licitações regionais. Em outro trecho, a investigação encontra um Termo de Adesão da Prefeitura de Porto do Mangue à Drogaria Mais Saúde, no valor de R$ 570.000, para aquisição de remédios.
Em Pau dos Ferros, a engrenagem é objetiva. O Contrato 078/2025, assinado pela prefeita Marianna Almeida em 21 de agosto de 2025, não é fruto de licitação própria do município — é adesão à Ata 057/2024 do Fundo Municipal de Saúde de Mossoró. A Ata 057/2024 origina-se do Pregão 11/2024-SMS de Mossoró. É o mesmo processo cuja “matemática” foi descrita pelos sócios da Dismed na escuta ambiental captada na sede da empresa, em Mossoró, em 13 de maio de 2025 — e em que se atribui a Allyson Bezerra o recebimento de 15% sobre o valor das ordens de compra. A busca por dados do contrato de Pau dos Ferros não é possível retornar resultados no portal da transparência, mas segue no Diário Oficial do Municicípio

Os contratos e os signatários
No Diário Oficial do município de Pau dos Ferros de 17 de outubro de 2025, está registrado o resultado das Atas de Registro de Preços 081, 082, 083 e 084/2025. Vencedora no lote 1: “Dismed Distribuidora de Medicamentos Ltda, CNPJ 10.538.476/0001-34, saiu vencedor no(s) Lote(ns): 1, totalizando o valor de R$ 969.489,00”. O processo é a renovação anual do fornecimento à farmácia básica do município.
Em Apodi, é Luis Sabino da Costa Neto, prefeito eleito pelo MDB em 2024 com 55,3% dos votos. Sabino é o sucessor de Alan Jefferson da Silveira Pinto — conhecido publicamente como Alan Silveira — que governou Apodi por dois mandatos consecutivos, o último de 2021 a 2024, e foi o signatário das primeiras atas com a Dismed.
A reportagem identificou em atas anexadas como prova ao processo oito instrumentos de contratação entre a Prefeitura de Apodi e a Dismed, somando ao menos R$ 1,33 milhão entre 2023 e 2025: Pregões 017, 018, 019/2023; 019, 021/2024; 025, 026, 028/2025. Seis foram assinados sob Alan Silveira e três sob Sabino. A última, de R$ 45.521,92, foi assinada por Sabino e pelo Secretário de Saúde Ivanildo Lima de Oliveira em 6 de novembro de 2025 — dois dias depois do protocolo da Representação Criminal contra os sócios da Dismed.
Os apoios declarados
Em 11 de fevereiro de 2026, em entrevista publicada pelo portal Novo Notícias, Marianna Almeida confirmou apoio a Allyson Bezerra na disputa pelo Governo. Quando questionada se a decisão representava ruptura com o grupo da governadora Fátima Bezerra, respondeu: “Não é traição, é decisão pelo povo”. E acrescentou: “Traição de forma alguma. Tenho compromisso com a governadora”. A prefeita afirmou ter votado em Fátima duas vezes e mantido alinhamento com o PSD da senadora Zenaide Maia.
Em 13 de maio de 2026, em ato no Hotel Hertz em Pau dos Ferros, Marianna formalizou o apoio na presença de oito dos nove vereadores do município, do deputado estadual Galeno Torquato e do prefeito Benilton, de Rafael Fernandes. Marianna declarou: “Somos uma cidade polo, com um povo aguerrido e batalhador. E temos aqui um pré-candidato que gosta de gente, olha no olho das pessoas…”.
Em 21 de fevereiro de 2026, dez dias depois da declaração de Marianna, o ex-prefeito Alan Silveira anunciou pelas redes sociais que deixava o cargo de secretário estadual de Desenvolvimento Econômico do governo Fátima Bezerra para apoiar Allyson. A frase literal: “Entreguei o cargo que ocupava no Governo do Estado por coerência com o meu partido, o MDB, e sigo firme ao lado do nosso grupo e da Nação Bacurau. Não sou candidato a deputado estadual nem federal”. Allyson é filiado ao União Brasil. Sabino e Alan Silveira são do MDB — partido que decidiu compor a articulação local pela pré-candidatura. O vice Ivanildo Lima de Oliveira é filiado ao PSDB.
O apoio do prefeito Sabino foi formalizado em abril de 2026. Em ato com o deputado estadual Neilton, o vice-prefeito Ivanildo Lima de Oliveira e oito vereadores — Galinho, Júnior Souza, Ednarte Silveira, Railton Diógenes, Laete Oliveira, Ângelo de Dagmar, Andrea Alves e Filipe Gustavo —, Sabino “reuniu seu grupo político e oficializou apoio à pré-candidatura de Allyson Bezerra ao Governo do Estado”, segundo registro do portal Apodi Agora.
O vice-prefeito Ivanildo, presente no ato, é o mesmo Ivanildo Lima de Oliveira que assina, como Secretário Municipal de Saúde, os contratos do município com a Dismed. É farmacêutico de formação.
A continuidade
A operação ostensiva da Polícia Federal foi cumprida em 27 de janeiro de 2026. Naquela data, mandados de busca e apreensão foram cumpridos nas residências dos sócios da Dismed, do prefeito Allyson, do vice-prefeito Marcos Antônio Bezerra de Medeiros e dos demais investigados. A Representação Criminal já havia sido protocolada três meses antes, em 4 de novembro de 2025. Os contratos da Dismed em Apodi seguiram sendo assinados. Em Pau dos Ferros, ata e adesão concorreram com o cronograma da operação. As declarações de apoio a Allyson vieram entre fevereiro e maio de 2026.
A Polícia Federal não identifica, nas escutas, o nome do funcionário público de Apodi que receberia a “comissão de 15%”. As gravações usam pronomes: “o chefe”, “ele”, “o abestalhado”. Em Pau dos Ferros, os áudios falam do certame “que nós estamos armando”, sem nominação direta.
Tanto Mariana Almeida como Sabino Neto foram procurados pelo Blog do Dina para comentar esta reportagem, mas não retornaram até a publicação.


