Allyson Bezerra disputa hoje o Governo do Rio Grande do Norte, mas segue respondendo na Justiça Eleitoral por fatos de 2024, ano em que buscou a reeleição à Prefeitura de Mossoró. Dois processos seguem em tramitação, as Ações de Investigação Judicial Eleitoral de números 0600126-95.2024.6.20.0033 e 0600127-80.2024.6.20.0033, movidas pelos candidatos derrotados naquele pleito, Lawrence Amorim e Genivan Vale. As duas ações tratam do mesmo ponto, a suposta articulação entre perfis nas redes sociais e agências de publicidade contratadas pela Prefeitura para beneficiar a candidatura, o que a Procuradoria Regional Eleitoral já classificou como possível abuso de poder político, econômico e midiático.
O Ministério Público Eleitoral não conseguiu comprovar que a campanha extrapolou os limites legais de gasto com publicidade. Mas apontou que o uso de perfis e sites alinhados à candidatura teria quebrado a igualdade de condições entre os concorrentes. A suspeita é que parte da verba de publicidade institucional tenha, na prática, sustentado blogs e perfis dedicados a promover o então prefeito e atacar adversários. Um levantamento mostrou que a gestão empenhou R$ 2.350.842,33 em publicidade só no primeiro semestre de 2024, quase 39% acima da média histórica corrigida pela inflação. A Justiça obrigou a Prefeitura a apresentar todos os contratos de publicidade firmados entre 2021 e 2024.
O MPE pediu depois a quebra do sigilo bancário de três agências que atendem à Prefeitura, Art & C Comunicações, Dois A Publicidade e Executiva Agência de Propaganda, além de perícia contábil e técnica sobre o material publicitário produzido. O pedido veio depois que blogueiros ouvidos em audiência admitiram vínculo com a gestão. Em abril de 2026, a Procuradoria reforçou esse mesmo pedido num mandado de segurança ligado a uma das AIJEs.
A mesma engrenagem voltou a girar na pré-campanha ao governo, já em 2026. Em junho, o TRE-RN mandou tirar do ar uma peça publicitária divulgada ao mesmo tempo por cinco perfis do Instagram, com as frases “É tempo de Allyson” e “O povo quer #AllysonGovernador”, por entender que ultrapassava os limites da divulgação de pré-candidatura. Em julho, o Tribunal foi além e suspendeu temporariamente três desses perfis, @rncomallyson, @timeallyson e @allysondopovo, atendendo a ação do Partido Novo, que denunciou movimento coordenado para antecipar a campanha. Em agosto, novo capítulo: o TRE determinou que a Meta removesse um vídeo de evento no Palácio dos Esportes, em Natal, sob multa diária, e proibiu Allyson de republicar o conteúdo.
O Blog do Dina apurou um detalhe que dá peso extra a essa história. Com base em dados que a Meta e o Google entregaram à Justiça Eleitoral, o site mostrou que o perfil @allysonarrochado, o mais antigo da rede sob investigação e apresentado como iniciativa espontânea de apoiadores, tem entre seus cadastros o endereço secom@prefeiturademossoro.com.br, caixa de e-mail da secretaria municipal que o próprio Allyson chefiava antes de deixar a Prefeitura, em março. O Google confirmou que se trata de conta corporativa administrada pela equipe de TI do município. Um segundo endereço cadastrado no mesmo perfil, verificado em outubro de 2022, pertence a uma servidora que, poucos meses depois, foi nomeada por Allyson para chefiar a mesma secretaria. Segundo apuração anterior do próprio blog, ela é ligada ao administrador de um dos perfis mais ativos da rede.
Esse achado não está formalmente nos autos das AIJEs de 2024, que tratam de fatos daquele pleito municipal. Mesmo assim, ele reforça a tese que o Ministério Público já defendia desde então: perfis vendidos como espontâneos estariam, na prática, ligados à estrutura de comunicação da Prefeitura. As duas AIJEs continuam sem julgamento definitivo. Cabe agora ao plenário do TRE-RN decidir se acolhe o parecer do MPE, decisão que pode levar à cassação do mandato e à inelegibilidade de Allyson. Ele nega irregularidades e atribui as ações contra os perfis de sua pré-campanha a adversários políticos.

